O Brasil passou a ocupar, em julho de 2026, a posição de segundo país mais onerado por tarifas de importação dos Estados Unidos, ficando atrás apenas da China. A mudança ocorreu entre 22 e 24 de julho, quando o governo Donald Trump instituiu uma tarifa extra de 25% sobre produtos brasileiros com base na Seção 301 da Lei de Comércio norte-americana.
O novo percentual se somou a uma sobretaxa de 12,5% aplicada ao Brasil e a outros 59 países após investigação sobre uso de trabalho forçado. Com isso, a alíquota média incidente sobre mercadorias brasileiras saltou para 17,7%. No mesmo critério, a China permanece na liderança, com 27,2%.
Por que as taxas subiram
De acordo com o Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR), a medida de 25% foi motivada por “problemas no comércio digital” envolvendo o Brasil. O relatório cita decisões judiciais contrárias a plataformas americanas, barreiras para serviços de pagamento eletrônico, tratamento preferencial a determinados setores, aplicação da legislação anticorrupção, questões de propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal.
Em seguida, entrou em vigor a tarifa de 12,5% decorrente de investigação sobre produtos fabricados total ou parcialmente com trabalho forçado. Segundo Johannes Fritz, pesquisador do Global Trade Alert, a adoção das sanções específicas da Seção 301 substituiu o modelo anterior, da Seção 122, que permitia sobretaxas temporárias quase uniformes para todos os parceiros.
Setores mais afetados
Análise da estrategista Rebecca Nossig, da Nomad, indica que parte das exportações brasileiras pode enfrentar uma carga total de até 37,5% para ingressar no mercado norte-americano. Os segmentos mais impactados incluem agropecuária, indústria extrativa, pesca e determinados ramos da transformação, como couro, madeira, móveis, borracha, celulose, papel, minerais não metálicos, fumo, máquinas, equipamentos elétricos e produtos de informática.
Mesmo assim, cerca de 85% dos embarques brasileiros ficaram fora da tarifa ligada ao trabalho forçado, graças a uma rede de exceções que, globalmente, alcançou 65% do comércio inicialmente previsto para ser tributado. Produtos estratégicos do Brasil — como aeronaves, café, carnes e minérios — foram poupados.
Impacto nas trocas comerciais
Apesar do aumento das barreiras, as exportações totais brasileiras continuam em expansão, impulsionadas pela diversificação de destinos. No primeiro semestre de 2026, os embarques para os EUA somaram US$ 17,4 bilhões, o menor resultado desde 2023. No mesmo período, as vendas externas totais atingiram US$ 184,7 bilhões, crescimento de 11,5% e recorde da série iniciada em 1997.
Resposta de Brasília
O governo Lula contestou as medidas norte-americanas na Organização Mundial do Comércio (OMC), alegando violação das regras multilaterais. Entretanto, o processo enfrenta limitação prática: desde 2019 o Órgão de Apelação da entidade está paralisado por falta de juízes, após bloqueio dos próprios EUA.
A pesquisadora Lia Valls, do FGV Ibre e da UERJ, avalia que eventuais mudanças nas tarifas dependerão mais da pressão de empresas norte-americanas junto ao governo Trump do que de iniciativas diplomáticas brasileiras.
Com isso, Brasil e China permanecem como os dois principais alvos da política tarifária de Washington, enquanto União Europeia, México e Canadá mantêm ou ampliam vantagens no maior mercado do planeta.
Com informações de Gazeta do Povo