Brasília, 28 de julho de 2026 – A crise diplomática entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Javier Milei ganhou novo capítulo quando o ministro da Fazenda, Dario Durigan, chamou o mandatário argentino de “palhaço” e citou inflação, dívida e risco-país da Argentina como piores que os do Brasil. Economistas, porém, afirmam que a trajetória recente dos indicadores argentinos oferece lições ao governo brasileiro.
Risco-país recua 70% em 18 meses
Dados da JP Morgan mostram que o Índice EMBI+ da Argentina caiu de 1.400 pontos, em dezembro de 2023, para 443 pontos em junho de 2026 – redução de 70%. No mesmo período, o Brasil viu o indicador avançar, apontam análises da ZIIN Investimentos.
Dívida cai pela metade e contas voltam ao azul
Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o governo argentino, a relação dívida/PIB do país caiu de 156% na posse de Milei para 78,4% no fim de 2025. O ajuste incluiu superávits primários de 1,8% do PIB em 2024 e 1,4% em 2025, os primeiros em 14 anos.
No Brasil, o Tesouro Nacional registrou déficits primários de R$ 43 bilhões em 2024 e R$ 61,7 bilhões em 2025. A dívida bruta brasileira atingiu 81,1% do PIB em maio deste ano, o maior patamar em cinco anos.
Inflação desaba
A Argentina iniciou 2024 com inflação anual acima de 200%. Em junho de 2026, o índice mensal oficial está em torno de 2%, resultado atribuído ao fim do financiamento do gasto público via emissão de moeda. A projeção de inflação para o Brasil é de 5,1% em 2026, acima da meta de 3% do Banco Central.
Corte de gastos x aumento de receita
Marcos Vinícius Oliveira, da ZIIN Investimentos, destaca que o governo argentino optou por reduzir despesas: “O gasto primário caiu 27% em termos reais em 2024, com mais de 1,3 mil normas revogadas e cerca de 200 órgãos públicos extintos”. Para ele, o Brasil segue na direção oposta, priorizando elevação de arrecadação.
Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos, considera o ajuste argentino “um dos mais rápidos já observados” e afirma que a queda sustentada da inflação devolve previsibilidade a famílias e empresas.
Divergência política, convergência de números
Embora reconheçam dificuldades sociais persistentes na Argentina, os economistas entrevistados sustentam que o compromisso com superávit primário, ancoragem fiscal e corte de despesas constituem pontos que o Brasil poderia adotar para reverter o enfraquecimento de seus indicadores.
Durigan mantém as críticas, mas os números recentes sustentam a visão de parte do mercado de que, no campo fiscal, é o Brasil que tem mais a aprender com a Argentina.
Com informações de Gazeta do Povo