Cidade do Vaticano – O cardeal Víctor Manuel Fernández, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, advertiu que as ordenações episcopais anunciadas pela Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) para 1º de julho de 2026, sem o necessário mandato pontifício, configurariam ato cismático e acarretariam excomunhão automática, repetindo o que ocorreu em 1988.
Tradição de tensões
Fundada em 1970, na Suíça, pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre, a FSSPX começou em plena comunhão com Roma como sociedade sacerdotal de direito diocesano. A congregação celebra exclusivamente a Missa Tridentina em latim e rejeita partes dos ensinamentos e reformas do Concílio Vaticano II, sobretudo o documento Dignitatis Humanae, que afirma a liberdade religiosa.
O sociólogo italiano Massimo Introvigne, especialista no tema, explica que Lefebvre considerava inaceitável reconhecer tal liberdade a outras religiões. O arcebispo participou das quatro sessões do Concílio, assinou todos os documentos, mas radicalizou suas posições nos anos seguintes, preocupado com o que via como “desvios progressistas” dentro da Igreja.
Degraus rumo à ruptura
Após uma visita apostólica ao seminário de Écône, em 1974, Lefebvre tornou pública a rejeição a vários pontos do Concílio. Em 1975, a FSSPX foi suprimida canonicamente; em 1976, Lefebvre foi suspenso a divinis, mas continuou a ordenar sacerdotes.
O ponto crítico aconteceu em 30 de junho de 1988, quando Lefebvre consagrou quatro bispos sem autorização papal. Um dia depois, a então Congregação para os Bispos declarou a fraternidade cismática. Em 1º de julho, o papa João Paulo II publicou o motu proprio Ecclesia Dei, confirmando a excomunhão latae sententiae de Lefebvre e dos religiosos envolvidos.
Tentativas de reconciliação
Nos anos seguintes, o Vaticano buscou aproximar-se da FSSPX. Em 2007, Bento XVI promulgou o motu proprio Summorum Pontificum, reconhecendo o uso do Missal de 1962. Em 2009, o mesmo pontífice suspendeu a excomunhão ligada às consagrações de 1988, mas, segundo o canonista padre Pierpaolo Dal Corso, a pena relativa ao cisma continuou juridicamente em vigor.
O papa Francisco concedeu aos sacerdotes da fraternidade a faculdade de ouvir confissões e, mediante autorização do bispo local, celebrar matrimônios. As medidas, contudo, não regularizaram totalmente a situação canônica do grupo.
Nova data, mesmas consequências
Agora liderada pelo padre italiano Davide Pagliarani, a FSSPX marcou novas consagrações para 1º de julho de 2026 — a mesma data escolhida por Lefebvre em 1988. Para Introvigne, a escolha é “uma reafirmação simbólica” daquela atitude.
O cardeal Fernández reiterou que, se realizadas sem mandato papal, as ordenações provocarão excomunhão imediata dos participantes, recolocando a fraternidade no mesmo patamar de ruptura anterior às iniciativas de Bento XVI.
Impacto sobre os fiéis
De acordo com o Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, pronunciado em 1996, a excomunhão por cisma não se estende automaticamente aos fiéis que assistem a missas da FSSPX. O canonista monsenhor William King esclarece que só incorre na pena quem participa por rejeitar conscientemente a autoridade do papa.
Com o anúncio das novas ordenações e o alerta do Vaticano, a tensão entre a Santa Sé e a FSSPX volta ao nível observado nos anos 1980, quando a ruptura se consumou.
Com informações de Gazeta do Povo