Brasília, 8 de julho de 2026 – Um relatório da Subcomissão Temporária para Acompanhamento da Crise Humanitária dos Yanomami, do Senado, aponta que a resposta do poder público à situação na Terra Indígena Yanomami segue comprometida por falhas estruturais, operacionais e de gestão, apesar da decretação de emergência sanitária em 2023.
Dependência do transporte aéreo
Segundo o documento, cerca de 98% dos atendimentos de saúde dependem de aeronaves para deslocamento de equipes e remoção de pacientes. A escassez de voos e as condições climáticas provocam aproximadamente 40% de faltas às consultas especializadas.
Abastecimento precário e obra paralisada
A logística encarece a distribuição de medicamentos e insumos, prejudicada por contratos fracionados de compras públicas. O relatório também destaca a paralisação da reforma da Casa de Saúde Indígena Yanomami (CASAI-Y), após a empresa contratada executar apenas parte reduzida do cronograma.
Impactos do garimpo ilegal
Os senadores relacionam a atividade minerária à proliferação de malária, já que as cavas abertas acumulam água parada. A subcomissão recomenda investigação sobre os altos índices da doença e de coqueluche, além de apontar falhas na cobertura vacinal.
Barreiras culturais no atendimento
Normas hospitalares, como a limitação de acompanhantes, entram em choque com a organização familiar yanomami, contribuindo para evasão de pacientes e resistência a tratamentos.
Educação e segurança alimentar
Comunidades como Olomai, Budu-U e Mucajaí ficaram longos períodos sem aulas por falta de apoio logístico após mudanças na parceria com a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). A interrupção coincidiu com redução da merenda escolar. Relatos também indicam corte ou diminuição na distribuição de cestas básicas meses antes das visitas técnicas.
Assistência social limitada
A ausência de agências bancárias obriga indígenas a viajar a centros urbanos para sacar benefícios como o Bolsa Família, situação que, segundo o texto, favorece exploração financeira e exposição à violência. Em Boa Vista, faltam estruturas adequadas para acolher famílias indígenas durante tratamentos médicos ou trâmites administrativos.
Riscos à segurança e entraves judiciais
Confrontos armados ligados ao garimpo dificultam a chegada de equipes de saúde a aldeias fora dos polos-base. Há registros de homicídios, agressões físicas e violência sexual contra profissionais na região. O prazo de 24 horas para audiências de custódia é considerado incompatível com a logística amazônica; em alguns casos, mau tempo impede o transporte de presos, resultando no relaxamento das prisões. Investigações sobre organizações criminosas associadas ao garimpo podem levar mais de dez anos para serem concluídas.
Estrutura insuficiente da Funai
O relatório ressalta déficit de servidores, limitações logísticas e restrições orçamentárias da Funai nas áreas mais isoladas, além da falta de coordenação entre órgãos de saúde, segurança pública e proteção indígena.
O documento foi apresentado pela presidente do colegiado, senadora Damares Alves (Republicanos-DF), após diligências em campo e oitiva de representantes do governo e da sociedade civil.
Com informações de Gazeta do Povo