Caracas — Cinco meses após a captura de Nicolás Maduro por forças norte-americanas, o chavismo vive sua maior crise desde a morte de Hugo Chávez, em 2013. Críticas abertas à líder interina Delcy Rodríguez ganharam força depois de um exercício militar dos Estados Unidos em Caracas, em 23 de maio, e expuseram um racha que pode abrir caminho para a oposição pressionar por eleições livres.
Manobra militar acende estopim
No dia 23 de maio, duas aeronaves MV-22 Osprey do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA sobrevoaram a capital venezuelana e pousaram no pátio da embaixada americana, com autorização do governo provisório de Delcy Rodríguez. O exercício foi acompanhado pelo general Francis Donovan, comandante do Southcom, em sua segunda visita oficial ao país desde a operação de 3 de janeiro que resultou na prisão de Maduro, hoje detido em Nova York.
A cena provocou protestos de militantes chavistas e desencadeou ataques públicos à chefe do Executivo. A deputada Iris Varela chamou a aproximação com Washington de “traição” e, em rede social, rejeitou qualquer presença militar dos EUA. A ex-ministra Mary Pili Hernández, por sua vez, afirmou que nem nos períodos de melhor relação bilateral Caracas aceitara aeronaves americanas em solo venezuelano, questionando se o próximo passo seria permitir uma base dos EUA no país.
Concessões a Washington irritam base chavista
Desde que assumiu o comando, Delcy Rodríguez adotou medidas que romperam tabus históricos do chavismo: reabriu o setor petrolífero ao capital privado sob supervisão de Washington, restabeleceu vínculos com o FMI, promulgou anistia parcial para presos políticos e entregou aos EUA o empresário Alex Saab, aliado próximo de Maduro, em maio. As relações diplomáticas, rompidas havia sete anos, foram retomadas em março; voos diretos entre Miami e Caracas voltaram em abril e a embaixada americana reabriu.
Para o professor Marco Aurelio da Silva, do Centro Universitário da Serra Gaúcha, o antiamericanismo “foi o cimento ideológico do chavismo por duas décadas” e as concessões “beiram a capitulação” aos olhos dos setores mais radicais. O analista vê o risco de grupos militares e civis ricos sob Maduro reagirem caso sintam ameaçada sua imunidade ou fontes de renda.
Disputa por poder aprofunda cisão
Ex-ministro de Chávez e de Maduro, hoje exilado, Andrés Izarra avaliou ao portal argentino Infobae que o movimento perdeu projeto político após 2013 e se transformou numa “luta por cargos, influência e recursos”. Depois da captura de Maduro, Delcy trocou o comando das Forças Armadas, mas parte do alto-escalão permanece fiel ao ex-ditador, elevando o risco de rebeliões isoladas ou tentativas de contragolpe.
Oposição vê janela para cobrar eleições
Especialistas consideram que a falta de coesão na elite chavista cria rara oportunidade para que opositores forcem reformas no Conselho Nacional Eleitoral e o fim de inelegibilidades. A líder María Corina Machado, Nobel da Paz de 2025, classifica o governo interino como “insustentável” e se apresenta como interlocutora principal em negociações por transição democrática.
Nos Estados Unidos, o secretário de Estado Marco Rubio declarou à Câmara dos Deputados, no início de junho, que Washington apoia eleições “o quanto antes”, mas condiciona o pleito à formação de nova comissão eleitoral, liberdade de organização partidária e imprensa independente.
Enquanto a cúpula do Partido Socialista Unido da Venezuela tenta conter a rebelião interna e vender a imagem de um chavismo moderado, analistas alertam que o aprofundamento das divisões pode transformar a disputa palaciana em abertura inédita para mudanças políticas mais amplas no país.
Com informações de Gazeta do Povo