Pesquisadores identificaram dois sermões desconhecidos de Santo Agostinho de Hipona em um códice do século XII guardado na biblioteca diocesana de Pelplin, na região da Pomerânia, norte da Polônia. A confirmação da autoria veio após quase dois anos de análises filológicas.
Como a descoberta começou
Em 2024, o pesquisador independente Paul Alexander Nebauer, dedicado à história do antigo mosteiro cisterciense de Bad Doberan (Alemanha), localizou o manuscrito e procurou Christian Tornau, professor de filologia clássica da Universidade de Würzburg. Tornau, considerado um dos maiores especialistas alemães nas obras agostinianas, reuniu uma equipe que incluiu Clemens Weidmann, do Corpus Scriptorum Ecclesiasticorum Latinorum (CSEL), em Viena.
O códice fora copiado em Doberan no século XII, possivelmente a partir de um exemplar ainda mais antigo do mosteiro de Amelungsborn, na atual Baixa Saxônia. Entre quatro sermões presentes, dois já eram conhecidos—um autêntico e outro atribuído de forma apócrifa ao santo. Os demais exigiam verificação.
Metodologia rigorosa
A equipe transcreveu, traduziu e comparou cada passagem com o conjunto das obras de Agostinho. Parte do trabalho ocorreu durante uma escola de verão do CSEL em Viena, em 2025, com doutorandos e jovens pesquisadores. A conclusão: nada nos textos contrariava o estilo, a teologia ou a linguagem do bispo de Hipona, e elementos como práticas litúrgicas e referências norte-africanas reforçavam a autenticidade.
Conteúdo dos sermões
Os dois textos tratam do episódio bíblico em que o rei Saul consulta a “bruxa” de Endor (1 Sm 28). Agostinho discute as interpretações sobre a aparição do profeta Samuel — se resultado da vontade divina ou obra de um espírito maligno — e admite ambas como compatíveis com a fé cristã. O ponto mais inusitado é a hipótese de que Saul poderia ter se arrependido e alcançado redenção, ideia sem precedentes na tradição agostiniana conhecida.
Próximos passos
Uma edição crítica em latim, com tradução alemã e introdução detalhada, está prevista para o início de 2027. Tornau pretende apresentar o trabalho ao papa Leão XIV, ele próprio pertencente à Ordem de Santo Agostinho, fato que tem ampliado o interesse acadêmico e eclesiástico pela descoberta.
Com informações de Gazeta do Povo