Brasília – A Polícia Federal investiga o perito criminal João Cláudio Nabas por ter criado, em dezembro de 2025, dois arquivos em PDF contendo referências aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. O material foi extraído do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, principal alvo da Operação Compliance Zero.
Como os documentos foram produzidos
De acordo com relatórios encaminhados ao ministro André Mendonça, relator do caso no STF, Nabas teve acesso aos dados do telefone de Vorcaro em 1º de dezembro de 2025. Quatro dias depois, trabalhando remotamente a partir de Rondônia, ele reuniu mensagens, contatos telefônicos e menções aos magistrados em dois dossiês intitulados “Moraes.pdf” e “Toffoli e esposa.pdf”.
O primeiro arquivo destacou tratativas de um contrato de R$ 129 milhões entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes. O segundo concentrou informações sobre negócios da família de Dias Toffoli e de sua ex-mulher, Roberta Rangel, incluindo a participação em um resort de luxo no interior do Paraná.
Pressão por divulgação
Depoimentos de colegas indicam que Nabas, no dia 5 de dezembro, enviou à equipe um PDF sem identificação e sugeriu que o conteúdo fosse repassado à imprensa. Após a recusa, ele teria encaminhado novo arquivo com dados sobre Toffoli e reiterado a proposta. Investigadores suspeitam que o objetivo era provocar pressão popular para que eventuais apurações contra os ministros avançassem, já que qualquer investigação formal dependeria de autorização do próprio STF.
Vazamento e consequências
Parte das informações sobre o contrato da esposa de Moraes terminou publicada na imprensa semanas depois. A cronologia levou a PF a desconfiar que o perito tenha sido a fonte do vazamento. Em maio de 2026, a corporação cumpriu mandado de busca e apreensão na residência de Nabas, que foi afastado da Operação Compliance Zero e responde por violação de sigilo funcional, tentativa de induzir colegas ao crime e quebra de protocolo interno. Ele permanece em liberdade.
A PF ressalta que jornalistas não são alvo do inquérito; a investigação se concentra exclusivamente na conduta do servidor.
Silêncio das defesas
Os advogados de João Cláudio Nabas não comentaram o caso até o fechamento desta edição. Procurados, Alexandre de Moraes e Dias Toffoli também não se manifestaram.
Contexto da Operação Compliance Zero
Deflagrada em nove fases desde novembro de 2025, a Operação Compliance Zero apura um esquema bilionário de fraudes envolvendo o Banco Master. Daniel Vorcaro foi preso duas vezes e continua detido. A investigação já mirou políticos e empresários, mas não avançou nas supostas ligações de autoridades do Judiciário com o ex-banqueiro.
Por força do foro por prerrogativa de função, ministros do STF só podem ser investigados mediante autorização do próprio tribunal, o que reforçou a gravidade, na avaliação da PF, da iniciativa individual do perito ao elaborar e, possivelmente, divulgar os dossiês.
Com informações de Gazeta do Povo