Brasília – Entidades do agronegócio afirmam que a demora do governo federal em atender exigências sanitárias levou a União Europeia (UE) a excluir o Brasil, a partir de setembro, da lista de fornecedores habilitados de carne bovina, de frango, equídeos, pescados e seus subprodutos.
Falta de comprovação sobre uso de antimicrobianos
Na semana passada, a Comissão Europeia divulgou regulamento que mantém fora do bloco os produtos de origem animal brasileiros. O texto cita a “ausência de informações” que demonstrem o cumprimento das regras europeias sobre o uso de determinados antimicrobianos na produção pecuária.
Ofícios e críticas de federações estaduais
Após a decisão, o Sistema Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep) enviou ofício ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) pedindo rapidez nas tratativas para reverter o embargo. Em nota, a federação atribuiu o bloqueio à “morosidade” do governo ao prestar esclarecimentos sanitários.
Líder nacional em avicultura, o Paraná responde por 34 % da produção e 41 % das exportações brasileiras de carne de frango. Somente em 2025, o estado embarcou US$ 235 milhões em itens que agora correm risco de proibição no mercado europeu.
“É inadmissível perdermos mercados por falta de agilidade e articulação diplomática”, declarou o presidente da Faep, Ágide Eduardo Meneguette.
No Rio Grande do Sul, a Federação da Agricultura do Estado (Farsul) divulgou nota técnica com diagnóstico semelhante. A entidade sustenta que a restrição não foi inesperada e decorre de “falha de coordenação” do Brasil diante de uma exigência já conhecida da UE.
Ex-autoridades falam em “incompetência”
O ex-ministro da Agricultura Antonio Cabrera classificou a barreira europeia como resultado de “incompetência” federal. Segundo ele, após a assinatura do acordo Mercosul-UE era previsível o endurecimento das regras e, mesmo assim, o governo teria feito “diplomacia de palco” em vez de entregar documentação, rastreabilidade e auditorias exigidas.
Pré-candidato à Presidência, o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado também apontou falta de proatividade do Executivo. “Não respondemos às exigências sanitárias e hoje estamos bloqueados”, afirmou durante o evento Agro360º, em São Paulo.
Risco de perda de competitividade
Para a advogada Ieda Queiroz, especialista em agronegócio, a credibilidade internacional do Brasil fica ameaçada se o país não comprovar, de forma auditável, a rastreabilidade animal e o uso adequado de antimicrobianos. Ela lembra que o Reino Unido também estuda restrições semelhantes, sinalizando “escrutínio internacional” sobre a governança sanitária brasileira.
Posicionamento do governo
Procurado, o Mapa não respondeu aos questionamentos sobre eventuais atrasos no envio de informações à UE. O Ministério das Relações Exteriores informou, por meio de nota, que mantém diálogo com autoridades europeias, mas não divulgaria detalhes “para resguardar a boa condução do processo negociador”.
Até o momento, não há estimativa oficial sobre quando o governo pretende apresentar a documentação exigida, nem sobre os impactos financeiros do veto para a cadeia produtiva.
Com informações de Gazeta do Povo