A aquisição da mineradora Serra Verde, em Minaçu (GO), pela norte-americana USA Rare Earth por US$ 2,8 bilhões transformou a exploração de terras raras em ponto central da campanha presidencial de 2026. O negócio, fechado neste mês, aumentou a tensão entre grupos que defendem maior controle estatal sobre os recursos minerais e aqueles que veem a entrada de capital estrangeiro como oportunidade de investimento.
A USA Rare Earth passou a operar a mina Pela Ema, atualmente a única fonte ativa de terras raras no Brasil. O local produz neodímio, praseodímio, térbio e disprósio — insumos estratégicos para ímãs, baterias, turbinas e eletrônicos. A operação recebeu apoio de US$ 1,6 bilhão do governo dos Estados Unidos e financiamento adicional de US$ 565 milhões, além de contratos de fornecimento por 15 anos sustentados por capital público e privado norte-americano.
Esquerda levanta bandeira da soberania
Em discurso recente na Espanha, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que o Brasil negociará com qualquer país, “mas ninguém será dono de nossas riquezas minerais”. Na Câmara, o líder do PT, Pedro Uczai (SC), e outros deputados de esquerda apresentaram projetos para criar a estatal Terrabras, adotar um regime de partilha inspirado no pré-sal e restringir exportações de terras raras.
O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL), classificou como “o fato mais grave destas eleições” a declaração do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no encontro conservador CPAC, nos EUA. Flávio defendeu parceria com Washington para reduzir a dependência de Pequim e chamou o Brasil de “campo de batalha” pelo futuro do hemisfério.
Deputados petistas como Lindbergh Farias (RJ) e Gleisi Hoffmann (PR) acusaram o parlamentar de “vender” as riquezas nacionais, enquanto o ministro das Relações Institucionais, José Guimarães (PT), o qualificou como “gerente de negócios dos bilionários dos EUA”.
Direita critica estatização e teme fuga de capital
Do outro lado, parlamentares do Novo — Marcel Van Hattem (RS), Luiz Lima (RJ), Adriana Ventura (SP) e Gilson Marques (SC) — repudiaram a criação da Terrabras, argumentando que a medida é inconstitucional e intervencionista. Entidades do setor mineral alertam para insegurança jurídica e lembram que o plano prevê participação mínima de 50% da estatal em toda a produção.
A pressão levou o governo a recuar: o Palácio do Planalto retirou a ideia de criar a empresa pública do pacote dos “minerais críticos”, preferindo incentivos fiscais e a instalação de um conselho estratégico ligado à Presidência. Mesmo assim, o 8.º Congresso do PT, encerrado no último fim de semana em Brasília, manteve a estatal como bandeira prioritária da legenda para 2026.
Ações na Justiça e no Ministério Público
Deputados do PSOL, Rede e PCdoB recorreram à Procuradoria-Geral da República (PGR) para tentar anular a venda da Serra Verde, alegando possível usurpação de competência da União na intermediação feita pelo então governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), pré-candidato ao Planalto. A deputada Heloisa Helena (Rede-RJ) acionou o Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo a suspensão do acordo, que, segundo ela, transfere o controle de um ativo estratégico sem garantir o interesse nacional.
Especialistas veem tema “capturado” pela polarização
Para o professor de Políticas Públicas Eduardo Galvão, do Ibmec-DF, a disputa geopolítica transformou um assunto técnico em munição de campanha, reunindo economia, identidade nacional e política externa no mesmo debate. Já o consultor Ismar Becker lembra que o forte interesse dos atores políticos reforça o potencial do Brasil no mercado global de terras raras, mas alerta para o risco de repetir atrasos observados no pré-sal.
Com a exploração do único projeto ativo fora da Ásia e a China concentrando 90% da produção mundial, a corrida por terras raras segue no centro do embate ideológico que marca a sucessão presidencial.
Com informações de Gazeta do Povo