Brasília – O Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, exigiu que o governo da Nicarágua divulgue, sem demora, informações sobre o destino e o estado de saúde do bispo emérito de Estelí, Abelardo Mata Guevara, 80 anos, detido em 29 de junho e desde então caracterizado como desaparecido forçado.
Em comunicado divulgado em 22 de julho, Türk manifestou “preocupação com relatos de repressão contra a Igreja Católica e outras confissões religiosas” e afirmou que não há dados oficiais que indiquem onde o prelado se encontra. “Insto as autoridades a libertar imediatamente todos os indivíduos detidos arbitrariamente e a garantir tratamento humano e digno, conforme as obrigações internacionais de direitos humanos”, declarou.
Detenção após missa e condições de saúde
Mata foi interceptado pela polícia duas vezes no fim de junho, no dia seguinte à missa de 28 de junho, na qual rezou “pela Igreja perseguida na Nicarágua”. Desde então, seu paradeiro permanece desconhecido, embora o governo afirme que ele estaria em casa. Bispos da América Central solicitaram permissão para que o religioso, portador de diabetes, problemas de visão e usuário de marca-passo, seja avaliado por médicos independentes.
Ortega descarta eleições e fecha cerco a opositores
O apelo da ONU ocorre em meio a novos sinais de fechamento político no país. Em 19 de julho, durante celebração do 47.º aniversário da Revolução Sandinista, o presidente Daniel Ortega anunciou publicamente que não haverá mais eleições na Nicarágua. Türk reagiu pedindo a reabertura do espaço cívico e a restauração do Estado de direito, com “pleno direito ao voto e à candidatura para todos os cidadãos, independentemente de posição política”.
O escritório do Alto Comissariado também informou que, no início de julho, o governo revogou as credenciais de vários advogados sem base legal ou explicações, enquanto pelo menos 46 pessoas continuam presas por motivos políticos. A ONU destaca ainda que o partido governista controla a Assembleia Nacional, os municípios e os conselhos regionais, ao mesmo tempo em que territórios indígenas sofrem impacto de concessões mineradoras concedidas sem consulta prévia ou consentimento das comunidades.
Para Türk, esses episódios representam “restrições severas às liberdades fundamentais, desmantelamento do espaço cívico e erosão constante do Estado de direito” no país centro-americano.
Com informações de Gazeta do Povo