Analistas em comércio exterior atribuem às escolhas diplomáticas do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) parte da responsabilidade pelo aumento de tarifas aplicado pelos Estados Unidos a produtos brasileiros nos dias 22 e 23 de julho. A escalada começou com um sobretaxa de 25% na quarta-feira (22) e foi seguida, 24 horas depois, por uma nova rodada que acrescentou 12,5% para mercadorias de 41 países, incluindo o Brasil.
Três pontos centrais para a crise
Especialistas ouvidos pela reportagem citam três fatores que, juntos, agravaram o quadro:
- desgaste político entre Lula e o presidente norte-americano Donald Trump;
- choque de interesses estratégicos entre Brasília e Washington;
- ausência de um plano brasileiro de longo prazo para diversificar mercados e reduzir dependência de destinos tradicionais.
A investigação que embasou a medida foi conduzida por um ano pelo United States Trade Representative (USTR), amparada na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA. O relatório acusa o Brasil de concorrência desleal, citando exportação de madeira e produtos agrícolas provenientes de áreas desmatadas, falhas no combate à pirataria e, ainda, o sistema de pagamentos PIX, considerado competição estatal ao setor privado americano.
Resposta considerada “passiva”
Para Márcio Coimbra, cientista político e ex-diretor da Apex-Brasil, o Palácio do Planalto preferiu “inércia técnica” e retórica para consumo doméstico, na tentativa de capitalizar o impasse politicamente. O governo nega e sustenta ter tentado negociar com Washington, classificando a ação americana como eminentemente política.
Entidades empresariais também criticaram a condução do processo. A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) afirmou, em nota, que “ruídos diplomáticos desnecessários” minaram uma relação construída em mais de dois séculos de cooperação bilateral.
Ambientação política pesa
Levantamento do Poder360 aponta que Lula fez ao menos 62 críticas públicas a Trump desde 2023, enquanto o republicano mencionou o brasileiro em menos de 20 ocasiões, quase sempre positivamente. Após o anúncio das tarifas, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, responsabilizou diretamente o presidente petista pelo fracasso das tratativas, alegando falta de “boa-fé”.
Choque de agendas e “linkage diplomacy”
Desde o início do mandato, Lula reforçou proximidade com os BRICS e intensificou laços com China e Rússia, enquanto divergências com Washington cresceram em temas como conflitos armados, governança digital e organismos multilaterais. Segundo Coimbra, os EUA passaram a adotar a chamada linkage diplomacy, que vincula comércio, segurança nacional e política externa na mesma equação. O Brasil, avalia, chegou a esse cenário sem coordenação compatível.
Ameaças de retaliação e socorro a empresas
Como reação, Brasília divulgou notas prometendo sobretaxar produtos americanos — movimento que, segundo analistas, poderia elevar custos ao consumidor e à indústria nacionais. O governo também cogita subsídios a empresas prejudicadas.
Atuação privada garante exceções
Parte dos produtos brasileiros ficou fora da lista de tarifas, graças à mobilização de setores empresariais que demonstraram impacto sobre cadeias produtivas dos próprios EUA. Aeronaves, café e carnes obtiveram exceções, enquanto segmentos considerados substituíveis mantiveram a sobretaxa.
A expectativa de representantes do agronegócio e da indústria é de que a disputa continue, elevando a insegurança para exportadores brasileiros nos próximos meses.
Com informações de Gazeta do Povo