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Sánchez reforça parceria com Pequim, confronta Trump e se oferece como elo entre UE e China

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Madri – Na quarta viagem a Pequim em apenas quatro anos, o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez voltou nesta sexta-feira (17) com 19 novos acordos bilaterais, o aval do líder chinês Xi Jinping para atuar como interlocutor privilegiado da União Europeia (UE) e um recado claro de afastamento dos Estados Unidos.

Durante o encontro no Grande Salão do Povo, Xi elogiou a Espanha por “agir com retidão moral” e declarou que Madri e Pequim “estão do lado certo da história”. Sánchez abraçou o papel descrito pelo dirigente chinês e defendeu uma relação UE-China baseada em confiança, diálogo e estabilidade, além de destacar a necessidade de uma ordem internacional multipolar.

Negócios em alta

Dez dos 19 acordos rubricados tratam de economia: protocolos para ampliar exportações agrícolas espanholas, cooperação em transporte e infraestrutura e a criação de um Mecanismo de Diálogo Estratégico Diplomático. Segundo a Administração Geral de Alfândegas da China, o fluxo comercial entre os dois países ultrapassou US$ 55 bilhões em 2025, alta anual de 9,8%. Empresas chinesas ampliaram investimentos em baterias, energia renovável e infraestrutura na Espanha, área vista por Madri como essencial para a reindustrialização.

Choque com Washington

Aliado próximo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o premiê espanhol intensificou críticas ao governo de Donald Trump. A Espanha foi o único membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) a votar contra a elevação dos gastos militares para 5% do PIB – meta que acabou aprovada. Madri também é o único país da aliança que não apresenta planos concretos para atingi-la.

A tensão se agravou após o início da guerra dos EUA e de Israel contra o Irã. Washington exigiu o uso das bases conjuntas de Rota e Morón para operações, mas Sánchez recusou. Em resposta, Trump chamou a Espanha de “perdedora” e ameaçou impor embargo comercial.

Riscos calculados

Para Marco Aurélio da Silva, professor de Relações Internacionais do Centro Universitário da Serra Gaúcha (FSG), o movimento espanhol é “pragmatismo estratégico”. Diante de tarifas e da imprevisibilidade americana, Sánchez busca na China um contrapeso para garantir mercados e atrair capital. O analista alerta, porém, para possível isolamento na Otan e no próprio bloco europeu, caso a aproximação com Pequim seja vista como ameaça à segurança atlântica.

Agenda com Lula em Barcelona

Logo após deixar a China, Sánchez recebeu Lula em Barcelona, também nesta sexta-feira (17). Os dois líderes, que já haviam firmado em 2025 uma declaração contra o avanço da extrema-direita, participam do evento socialista Global Progressive Mobilisation ao lado dos presidentes Gustavo Petro (Colômbia) e Claudia Sheinbaum (México), organizado pela Internacional Socialista e pelo Partido dos Socialistas Europeus.

Desconfiança europeia

Embora Sánchez tente vender a China como parceiro confiável, Bruxelas mantém cautela. A Comissão Europeia define Pequim simultaneamente como parceira, competidora e “rival sistêmica”. Em 2024, o déficit comercial do bloco com os chineses alcançou € 305,8 bilhões. Além disso, seguem em vigor tarifas sobre carros elétricos chineses e pressões para retirar equipamentos de Huawei e ZTE das redes de telecomunicações. Em linha semelhante, a Alemanha anunciou a substituição de componentes chineses no 5G e o veto a fabricantes de Pequim no futuro 6G.

Para Claudio Feijoo, especialista em China na Universidad Politécnica de Madrid, Pequim enxerga Madri como peça útil para reconstruir pontes com a Europa. Da Silva pondera, contudo, que o peso político espanhol é “limitado, embora relevante”, e dificilmente mudará a visão europeia de que a parceria com a China deve permanecer restrita ao campo econômico.

Mesmo assim, Sánchez parece disposto a sustentar o papel de mediador entre Bruxelas e Pequim, ainda que isso aprofunde o atrito com Washington.

Com informações de Gazeta do Povo