O governo do primeiro-ministro Pedro Sánchez editou em abril um decreto que permite a cerca de 500 mil imigrantes sem documentos solicitar permissões de residência e de trabalho na Espanha. A medida, classificada pelo Executivo socialista como resposta a uma “emergência social”, vem sendo recebida com forte resistência da opinião pública e tem alimentado o avanço de partidos nacionalistas de direita.
Maioria desaprova a iniciativa
Levantamento do jornal El País aponta que 51% dos espanhóis consideram excessivo o número de beneficiados, enquanto 33,3% o julgam adequado. Segundo a mesma pesquisa, os entrevistados preveem impactos negativos em:
- acesso à moradia – 50,3%;
- serviços públicos, como saúde e educação – 48,6%;
- convivência social – 43,4%;
- emprego – 38,3%;
- economia – 37,3%.
A decisão foi tomada por decreto, sem passar pelo Parlamento. O líder do partido Vox, Santiago Abascal, criticou o procedimento ao afirmar na rede X: “O tirano Sánchez odeia o povo espanhol. Ele quer substituí-lo. Por isso, criou um fator de atração [de imigrantes] por decreto, para acelerar a invasão”.
Desgaste eleitoral dos socialistas
Enquanto a popularidade do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) recua, o Vox cresce nas eleições regionais. Nos pleitos mais recentes:
- Andaluzia (17 de maio): PSOE obteve 28 cadeiras (–2); Vox, 15 (+1); o conservador Partido Popular (PP) venceu a disputa;
- Aragão (fevereiro): PSOE 18 cadeiras (–5); Vox 14 (+7); vitória do PP;
- Extremadura (dezembro): PSOE 18 cadeiras (–10); Vox 11 (+6); PP liderou.
Paralelo com Portugal
Especialistas comparam o cenário espanhol ao português. Em Portugal, o mecanismo chamado “manifestação de interesse”, que regularizava residentes sem contrato formal, desgastou o antigo governo socialista e foi revogado em 2024 pelo premiê conservador Luís Montenegro. Com apoio do partido Chega, o Parlamento aprovou uma nova Lei de Estrangeiros, restringindo reagrupamento familiar e limitando vistos de trabalho a profissionais altamente qualificados, além de endurecer as regras para concessão de nacionalidade.
Para o economista e doutor em relações internacionais Igor Lucena, as medidas de Sánchez tendem a manter a pauta migratória no centro do debate eleitoral. “Quando os países sentem que seu modo de vida está sendo ameaçado, surge uma forte visão anti-imigração. A regularização desses 500 mil imigrantes desgasta um governo que já está há muito tempo no poder e amplia a capacidade de mobilização da direita”, avaliou.
A pressão popular, as denúncias de corrupção envolvendo a esposa de Sánchez e a ascensão do Vox formam, segundo analistas, um cenário de desafio contínuo para o governo socialista.
Com informações de Gazeta do Povo