Home / Economia / De loja de bairro à recuperação judicial: a trajetória da Barion sob o comando de Rommel Barion

De loja de bairro à recuperação judicial: a trajetória da Barion sob o comando de Rommel Barion

ocrente 1779665657
Spread the love

A fabricante paranaense de chocolates Barion, com quase sete décadas de história, atravessa em 2026 uma fase decisiva: o processo de recuperação judicial aberto em março de 2025, a sucessão para a terceira geração da família e a manutenção de 300 toneladas de doces produzidas mensalmente, mesmo diante do chamado “custo Brasil”.

Origem modesta e visão industrial

O negócio começou em 1959, quando o patriarca Ricardo Barion mudou-se de Marília (SP) para Curitiba (PR) e inaugurou uma pequena loja de doces com os filhos Ricardo Jr. e Roberto. O caçula, Rommel Barion, hoje com 73 anos, ingressou no balcão aos 14 anos, acumulando experiência prática antes da formação acadêmica.

No fim da década de 1970, Rommel passou por um programa técnico na Alemanha, estagiou em indústrias de chocolate e frequentou feiras internacionais. De volta ao Brasil, trouxe conhecimento de tecnologia e processos que impulsionaram a transformação industrial da empresa.

Instalações e barreiras estruturais

A primeira fábrica, em Curitiba, ergueu-se em terrenos comprados aos poucos, conforme o caixa permitia. Ao transferir-se depois para Colombo, na Região Metropolitana, a Barion esbarrou em zoneamento restritivo e falta de infraestrutura básica — a estrada de terra dificultava o recebimento de insumos em dias chuvosos.

Rommel também liderou entidades do setor: presidiu o sindicato das indústrias de chocolate, foi vice-presidente da Fiep por mais de dez anos e participou de discussões sobre logística reversa e exigências ambientais.

Hiperinflação e lançamento dos Tubetes

Durante a hiperinflação dos anos 1980, com índice anual acima de 5.000%, a empresa respondeu ao ambiente volátil com inovação. Surgiu o Tubetes, inspirado em produtos internacionais e adaptado ao mercado nacional, colocando a Barion entre as três maiores marcas brasileiras do segmento, segundo o Sincabima.

Exportação a 14 países e recuo estratégico

Nos anos seguintes, Rommel comandou a internacionalização. Em seu auge, a empresa exportava simultaneamente para 14 mercados na Europa, América do Norte, Oriente Médio e Oceania. Variações cambiais, barreiras sanitárias e custos logísticos, porém, reduziram a competitividade do chocolate brasileiro. Atualmente, as vendas externas concentram-se no Mercosul — Argentina, Paraguai e Uruguai — com meta de retomar 10% da produção para fora do país.

Receita de R$ 130 milhões até a crise do cacau

A Barion encerrou 2024 com faturamento de R$ 130 milhões. Em seguida, enfrentou uma sucessão de choques: a crise de grandes varejistas nacionais, como Americanas e Dia, e o salto da cotação do cacau de US$ 2,5 mil para US$ 12,5 mil a tonelada. Sem repassar integralmente os custos, as margens se comprimiram e a empresa pediu recuperação judicial, listando passivo de R$ 34,4 milhões.

Mesmo assim, manteve cerca de 350 funcionários fixos (podendo ultrapassar 400 na Páscoa) e seguiu produzindo 300 toneladas por mês na planta de Colombo.

Sucessão para a terceira geração

Rommel Barion estruturou a transição familiar antes do pedido de recuperação. O processo começou com oito representantes da terceira geração, entre filhos e sobrinhos. Critérios como formação universitária, experiência fora da companhia e capacitação específica foram exigidos; três permanecem hoje na operação. “Vocês não vão herdar a empresa, vão herdar participação em uma sociedade — e sociedade tem regras”, frisa o empresário.

Embora aposentado formalmente, Rommel continua como representante legal e participa das decisões estratégicas. Para ele, estagnar não é opção: “O homem não pode parar. Quando para, perde o ritmo e até a saúde”.

Com a recuperação judicial em andamento, a Barion busca reorganizar dívidas, preservar empregos e garantir que a terceira geração assuma um negócio viável, repetindo a adaptação que marcou cada etapa de sua história desde 1959.

Com informações de Gazeta do Povo