Brasília, 9 de julho de 2026 – Uma avaliação apresentada pelo Itamaraty a parlamentares reacendeu o atrito diplomático entre Brasil e Estados Unidos ao sugerir que Washington poderia realizar operações militares em território brasileiro para neutralizar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), organizações que o governo norte-americano incluiu, em junho, em sua lista de grupos terroristas estrangeiros.
Casa Branca chama insinuação de “absurda”
A administração do presidente Donald Trump reagiu à leitura do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e classificou a possibilidade de incursão armada como “absurda”. Segundo autoridades norte-americanas, a designação terrorista busca, sobretudo, ampliar sanções financeiras e migratórias contra integrantes das facções.
Sanções e prisões já em curso
Após a lista de terrorismo, o Departamento do Tesouro bloqueou bens de brasileiros e de empresas sediadas em São Paulo por supostos vínculos com o PCC. O Departamento de Segurança Interna prendeu recentemente, na Carolina do Norte, um ex-chefe que teria ligação simultânea com PCC e CV. Washington afirma que as facções brasileiras são “uma das principais ameaças à segurança nacional” e que expandiram atividades para Reino Unido, Turquia, Japão e, mais recentemente, território norte-americano.
Especialistas veem risco econômico, não militar
Para Márcio Coimbra, CEO da Casa Política e ex-diretor da Apex-Brasil, a nota do Itamaraty usa “o espantalho do intervencionismo” para desviar o debate sobre falhas internas na segurança pública. A professora de Direito Internacional Carolina Montolli (Estácio) acrescenta que não existe base jurídica para intervenção armada em um país democrático e soberano como o Brasil.
A advogada Ingrid Domingues-McConville, que atua há três décadas nos EUA, explica que as sanções anunciadas têm efeito interno ao sistema norte-americano: “Medidas da Ofac isolam financeiramente pessoas e empresas listadas, mas não autorizam ações extraterritoriais”.
Instrumentos disponíveis a Washington
O pró-reitor da Estácio Brasília, Murilo Borsio Bataglia, lembra que a Convenção da ONU contra o Crime Organizado Transnacional, incorporada ao direito brasileiro pelo Decreto 5.015/2004, prevê apenas cooperação judicial, troca de informações e extradições, sempre mediante pedido formal. Já Coimbra observa que os EUA podem ainda endurecer a concessão de vistos e fechar brechas de cooperação penal, mas “uso de força fora de suas fronteiras não é opção cabível”.
Com isso, a expectativa de analistas é que Washington siga reforçando bloqueios de bens, restrições de viagem e investigações conjuntas, sem qualquer movimento armado dentro do Brasil.
Com informações de Gazeta do Povo