Washington – O governo dos Estados Unidos incluiu o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) na relação oficial de Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO) e de Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGT). O anúncio foi feito nesta quinta-feira (28) pelo secretário de Estado, Marco Rubio, e a medida passa a valer em 5 de junho.
A decisão, adotada na gestão do presidente Donald Trump, baseia-se em denúncias sobre cooperação das facções brasileiras com o grupo libanês Hezbollah, apoiado pelo Irã. Com a nova classificação, qualquer apoio material aos dois grupos por pessoas ou entidades sob jurisdição norte-americana torna-se crime, seus ativos podem ser bloqueados e instituições financeiras dos EUA ficam obrigadas a relatar movimentações vinculadas às facções.
Pedido partiu de Flávio Bolsonaro
Segundo o comunicado, a iniciativa ganhou força após solicitação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que se reuniu com Trump no Salão Oval e, no dia seguinte, reforçou o apelo a Rubio na Casa Branca. A porta-voz do Departamento de Estado para assuntos do Brasil, Amanda Roberson, afirmou nesta sexta-feira (29) que a decisão foi “exclusiva do presidente e de sua equipe”, negando influência externa, embora tenha confirmado registros de atividades do PCC e do CV em 12 estados norte-americanos.
Hezbollah e a Tríplice Fronteira
Relatório da Rand Corporation aponta a região da Tríplice Fronteira (Brasil, Argentina e Paraguai) como um dos principais núcleos de apoio ao Hezbollah fora do Oriente Médio desde a década de 1990. Condições como fronteiras porosas e fiscalização limitada teriam favorecido a presença do grupo. Um alerta do FinCEN, órgão do Tesouro dos EUA, já advertia, em 2024, bancos de todo o mundo sobre risco de financiamento ao Hezbollah originado na área.
Em agosto do ano passado, o Paraguai instalou um centro antiterrorismo em Assunção, com agentes treinados pelo FBI, declarando formalmente o Hezbollah como organização terrorista. Meses depois, Brasil, Paraguai e Argentina elevaram o nível de alerta após a morte do líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, em ação israelense.
Aliança das facções brasileiras com o grupo libanês
Levantamento do pesquisador Diorgeres de Assis Victório indica que a aproximação entre PCC e Hezbollah data de 2006, na própria Tríplice Fronteira. O PCC teria oferecido proteção a presos libaneses no sistema prisional brasileiro, recebendo, em troca, facilidades para tráfico de armas, drogas e lavagem de dinheiro. Antes disso, o Comando Vermelho já mantinha contatos por meio do narcotraficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar.
Em 2018, depoimento de Joseph Humire ao Congresso dos EUA relacionou o PCC a redes do Hezbollah e citou 11 indivíduos residentes no Brasil e no Paraguai sancionados por apoiar financeiramente o grupo libanês – nove deles teriam aberto 18 novas empresas depois das penalidades.
Reação do governo brasileiro
O Palácio do Planalto reagiu com críticas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou Flávio Bolsonaro como “traidor” e afirmou que a medida “abre caminho para intervenção estrangeira”. Em maio, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, alertara em Washington que a decisão poderia afetar o mercado financeiro e o turismo no Brasil. Diplomatas brasileiros avaliam que a designação fortalece a base legal para ações mais rigorosas dos EUA contra integrantes das facções em território nacional.
Com informações de Gazeta do Povo