Declarações públicas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), feitas a partir do início de seu terceiro mandato em 2023, têm sido seguidas de protestos formais, notas de repúdio e pedidos de retratação por parte de governos estrangeiros. Os episódios vão de comentários sobre a Guerra do Paraguai a comparações entre a ofensiva de Israel em Gaza e o Holocausto.
Guerra do Paraguai reacende tensão com Assunção
Em 24 de julho de 2026, durante visita à empresa Avibras Aeroco, em Jacareí (SP), Lula afirmou que o Paraguai “decidiu invadir o Brasil”, dando origem à Guerra do Paraguai (1864-1870). A fala gerou reação imediata no país vizinho. O vice-presidente paraguaio, Pedro Alliana, rebateu o comentário e solicitou a devolução do canhão El Cristiano, peça considerada troféu de guerra.
Comparação entre Gaza e Holocausto cria maior crise com Israel
Na cúpula da União Africana, em Adis Abeba, em fevereiro de 2024, o presidente brasileiro disse que a ofensiva israelense na Faixa de Gaza era algo “que só existiu quando Hitler resolveu matar os judeus”. O governo israelense declarou Lula persona non grata, convocou o embaixador do Brasil para uma reprimenda e exigiu desculpas. Brasília respondeu chamando seu representante em Tel Aviv para consultas.
Ucrânia critica equivalência entre Zelensky e Putin
Ainda na campanha de 2022 e nos primeiros meses do novo mandato, Lula declarou que o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, seria “tão responsável quanto” Vladimir Putin pela guerra, além de acusar Estados Unidos e Europa de “incentivar” o conflito ao enviar armas. Em 2024, voltou a dizer que ambos os líderes “parecem gostar da guerra”. Kiev contestou as afirmações e a Casa Branca acusou o Brasil de repetir narrativas russas e chinesas.
Defesa de Maduro desagrada vizinhos latino-americanos
Em maio de 2023, ao receber Nicolás Maduro em Brasília, Lula afirmou que a percepção de ditadura na Venezuela seria “uma narrativa”. A frase foi rebatida publicamente pelo então presidente do Uruguai, Luis Lacalle Pou, e pelo chileno Gabriel Boric, que mencionaram violações de direitos humanos no país caribenho.
Mercosul-UE: acusação de “colonialismo” irrita Bruxelas
Durante negociações do acordo Mercosul-União Europeia, o presidente acusou os europeus de postura “colonialista” ao exigirem compromissos ambientais extras. O tom adotado gerou desconforto entre autoridades de Bruxelas e foi criticado pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.
Análise aponta estratégia alinhada ao Sul Global
Para a analista Yolanda Tolentino (FAAP/UFRJ), os pronunciamentos improvisados servem de veículo para uma linha diplomática que privilegia o chamado Sul Global e mantém desconfiança em relação às potências ocidentais. O cientista político Elton Gomes (UFPI) avalia que a polarização doméstica tornou a retórica externa mais incisiva, rompendo com a tradição brasileira de neutralidade.
Consequências econômicas em debate
O estrategista Cezar Roedel observa que declarações presidenciais podem afetar negociações comerciais, citando a crise com Israel e o atrito com os Estados Unidos como exemplos de situações que dificultam avanços tarifários ou acordos bilaterais. Já Gomes pondera que, apesar das trocas de críticas entre Lula e Javier Milei, o comércio Brasil-Argentina manteve níveis recordes, indicando que interesses estruturais tendem a prevalecer.
Desde 2023, a sucessão de episódios reforça o contraste entre o estilo direto do presidente e a tradição de cautela do Itamaraty, ampliando o debate sobre o impacto das falas de Lula na projeção internacional do país.
Com informações de Gazeta do Povo