Brasília – A combinação de medidas protecionistas dos Estados Unidos sob a gestão de Donald Trump e conflitos geopolíticos patrocinados pela Casa Branca tem provocado efeitos em cadeia sobre a economia brasileira desde o ano passado, segundo analistas.
Em abril, a prévia do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA-15) avançou 0,89%, resultado acima do esperado por especialistas e puxado principalmente por alimentos e transportes. No acumulado de 12 meses, a alta chegou a 4,37%.
Tarifas atingem 77,8% das vendas brasileiras aos EUA
No ano passado, Washington anunciou uma tarifa extra de 10% sobre todos os produtos importados do Brasil a partir de abril, além de sobretaxas que variam de 25% a 50% para setores estratégicos, como aço, alumínio e autopeças. Em julho, veio um novo baque: um adicional de 40% sobre a maior parte das exportações brasileiras.
Levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) aponta que 77,8% do total enviado pelo Brasil ao mercado norte-americano passou a ser afetado. Em novembro, parte das barreiras foi aliviada para itens como café e carne bovina, mas o setor produtivo segue sob pressão.
“National shoring” agrava desindustrialização
Para Daniel Vargas, professor de Direito e Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV), Trump rompeu com a lógica do livre-comércio ao defender a produção “dentro de casa”, conceito que ele chama de national shoring. “Se a fábrica não estiver nos Estados Unidos, não serve”, resume o pesquisador, destacando que a falta de acordos multilaterais robustos e o foco brasileiro em commodities ampliam a perda de competitividade da indústria local.
Petróleo mais caro injeta inflação e força alta da Selic
As intervenções militares ordenadas por Washington no Oriente Médio e na Venezuela reduziram a oferta global de petróleo. Com o Estreito de Ormuz sob tensão, o Brent saltou quase 60% em 12 meses. No Brasil, onde o transporte rodoviário domina a logística, o encarecimento dos combustíveis contaminou a cadeia de preços.
O Relatório Focus do Banco Central projeta IPCA de 4,89% em 2026, acima da meta, e antecipa a taxa Selic acima de 13% ao fim do ano. Juros mais altos travam o crédito, inibem investimentos e mantêm a estimativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 1,85%.
Real fraco, fuga de capitais e agronegócio forte, mas dependente
Com investidores migrando para mercados considerados mais seguros, o real perdeu valor e a saída de recursos ganhou velocidade. Enquanto a indústria sofre, o agronegócio colhe ganhos da guerra comercial entre EUA e China: só no primeiro trimestre, as exportações brasileiras para o país asiático cresceram 21,7%, impulsionadas pela soja.
O benefício, porém, vem acompanhado de riscos. A imposição chinesa de tarifa de até 55% sobre carne brasileira que ultrapassar a cota anual e as restrições na venda de fertilizantes acendem o alerta sobre a forte concentração em um único parceiro, lembrou Vargas.
Na avaliação do professor da FGV, a política norte-americana não é a única responsável pelas instabilidades domésticas, mas age como um “teste de estresse” que expõe problemas estruturais do Brasil, como infraestrutura precária, juros elevados e insegurança jurídica.
Com informações de Gazeta do Povo