Brasília – 05/05/2026. O Partido dos Trabalhadores (PT) aprovou, em seu encontro nacional realizado nesta terça-feira (5), o documento “Manifesto Construindo o Futuro”, que servirá de base para o programa de campanha de um eventual quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O texto reforça o papel do Estado como indutor do desenvolvimento, critica o que chama de “neoliberalismo” e apresenta uma extensa lista de novos direitos e gastos públicos, mas não detalha como financiar a agenda em meio ao desequilíbrio das contas federais.
Documento contraria pedido de pragmatismo de Lula
Segundo dirigentes partidários, Lula solicitara propostas “factíveis” para enfrentar o quadro econômico. Especialistas ouvidos pela reportagem avaliam, contudo, que o manifesto segue caminho oposto ao ignorar o problema fiscal. “Chama a atenção a completa falta de sintonia com a deterioração das contas”, afirma João Mario de França, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV-Ibre).
Números do déficit
Dados do Banco Central mostram que, dos 39 meses do atual governo, 32 terminaram no vermelho. Em março de 2026, o déficit primário consolidado atingiu 1,06% do PIB, enquanto a dívida bruta saltou de 71,7% do PIB em dezembro de 2022 para 80,1% em março deste ano, um avanço de 8,4 pontos percentuais.
“Enfrentar o rentismo” sem explicar de onde virá o dinheiro
Para sustentar novos investimentos, o texto fala em “enfrentar o rentismo” e “fortalecer o investimento público”. A proposta, porém, não traz estimativas de custo nem metas de redução de dívida ou corte de despesas obrigatórias. “É genérico; não há plano técnico nem prazos”, critica Alexandre Bertoncello, CEO da Bella Investimentos.
Promessas de expansão de direitos
Entre as medidas listadas, estão escola em tempo integral para todas as crianças, mobilidade urbana com tarifa zero e fim da escala 6×1. Para França, trata-se de abordagem “populista” por não apontar quem pagará a conta.
Comparação fiscal contestada
O manifesto alega que o governo reduziu o déficit primário médio a um terço do registrado na gestão anterior, baseando-se em dados inflados pelo gasto emergencial da pandemia em 2020. Analistas apontam que, sem esse recorte, a dívida voltou ao maior nível desde 2021.
Produtividade e abertura comercial fora do radar
O texto tampouco aborda medidas de aumento de produtividade ou abertura econômica. “Não dá para crescer sem encarar esses temas”, diz França.
Tom ideológico e polarização
Termos como “fascismo” e “extrema-direita” aparecem com frequência no documento, o que, para Rodrigo Marinho, do Instituto Livre Mercado, reforça a polarização. “É a reedição de um modelo que já falhou”, afirma.
Risco de “estelionato eleitoral”
Samuel Pessoa, também do FGV-Ibre, alerta que ignorar o ajuste pode repetir 2014, quando promessas irrealizáveis resultaram em forte correção fiscal pós-eleição. “O ajuste será inevitável, independentemente de quem vença”, ressalta.
Procurado, o PT não se pronunciou até o fechamento desta reportagem.
Com informações de Gazeta do Povo