São Paulo, 18 abr. 2026 – A disparada nos preços dos fertilizantes e as restrições às exportações impostas por Rússia e China reacenderam o alerta sobre a dependência brasileira de insumos importados, hoje acima de 80%.
Ureia sobe 50% em um mês
Relatório da Itaú BBA Agro aponta que a ureia atingiu US$ 710 por tonelada no porto brasileiro, avanço de 50% em 30 dias. O encarecimento é atribuído ao agravamento dos conflitos no Oriente Médio, que envolvem o Irã – um dos principais fornecedores globais do produto.
A tensão na região também prejudica a logística pelo Mar Vermelho, alongando viagens em até 15 dias e elevando o frete.
Moscou e Pequim priorizam seus mercados internos
Diante do risco de escassez, a Rússia suspendeu provisoriamente as vendas externas de nitrato de amônio, enquanto a China limitou as exportações de fosfatados. As duas medidas reduzem a oferta global no momento em que o Brasil depende, respectivamente, de 25,9% do adubo russo importado em 2025 e de volumes chineses que, segundo a Reuters, chegam a 40 milhões de toneladas de diferentes formulações sob controle de Pequim.
Impacto previsto para a safra 2026/27
Os fertilizantes do ciclo atual já foram comprados, mas se o bloqueio russo só for suspenso em maio e a China retomar embarques apenas em agosto, o plantio da safra 2026/27 pode começar com custos inflacionados. Estudos da Cogo Inteligência em Agronegócio citam ainda volatilidade cambial e aumento no barril de petróleo, fatores que pressionam o frete marítimo após o fechamento do Estreito de Ormuz.
Técnicos do Ministério da Agricultura e Pecuária alertam para “elevadíssimo risco” de encarecimento interno e até falta de produto caso o cenário persista.
Dependência interna sem avanço
O Plano Nacional de Fertilizantes (PNF) pretende reduzir a importação de 85% para algo entre 45% e 50% até 2050, mas não apresentou progresso, segundo a ex-ministra e senadora Tereza Cristina (PL-MS). “Tivemos uma crise grave em 2022 e não aprendemos nada”, disse.
A produção local esbarra em custos de gás natural de até US$ 14 por milhão de BTU, frente aos US$ 2 a US$ 4 pagos por fábricas nos EUA e na Rússia. Projetos de potássio enfrentam disputas judiciais na bacia do rio Amazonas, e a tarifa inversa – carga tributária maior sobre a produção interna do que sobre o importado – desestimula investimentos, critica a Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda).
Sem sinalização de curto prazo para aumento da oferta doméstica, o Brasil continua vulnerável a oscilações externas que podem se refletir no preço dos alimentos já a partir do próximo ciclo agrícola.
Com informações de Gazeta do Povo