O comércio de rua brasileiro enfrenta uma queda de movimento em meio à migração acelerada dos consumidores para o ambiente digital. Entre 2020 e 2025, o faturamento do e-commerce nacional saltou 86,3%, passando de R$ 126,45 bilhões para R$ 235,52 bilhões, segundo a Associação Brasileira de Inteligência Artificial e E-commerce (ABIACOMM).
Pressão tripla sobre o varejo físico
O avanço das compras pela internet coincide com três fatores que comprimem as margens das lojas físicas: custo operacional elevado, endividamento das famílias e juros altos. Pesquisa da Confederação Nacional do Comércio (CNC) aponta que 81,6% dos lares brasileiros estão endividados, o que torna o consumidor mais seletivo.
Para manter as portas abertas, o lojista também lida com despesas crescentes. O Índice FipeZAP Comercial registrou alta de 8,91% nos aluguéis de salas e conjuntos de até 200 m² em 2025, a maior variação desde o início da série, em 2013. Em Brasília, o ajuste chegou a 18,80%; em Campinas, a 16,12%; e em Niterói, a 15,48%.
No crédito, as taxas de capital de giro para micro e pequenas empresas variam de 23% a 26% ao ano, podendo superar 30% em operações de curto prazo sem garantia, de acordo com o Banco Central.
Mudança de hábito confirmada em datas comemorativas
Levantamentos da Fecomércio-PR mostram que o comércio de rua perdeu participação nas intenções de compra em 2026. Para o Dia dos Namorados, 35% dos entrevistados planejaram comprar on-line, contra 29,4% que pretendiam recorrer às lojas de centro ou de bairro. No Dia das Mães, as aquisições pela internet cresceram 8,6%, enquanto a fatia das lojas de rua encolheu 2,6%.
“A internet e os shoppings ficaram mais acessíveis e seguros ao longo do tempo”, observa Lucas Dezordi, assessor econômico da Fecomércio-PR e professor da PUCPR.
Especialistas veem mudança estrutural
Para o economista Fernando Balotim, especialista em reestruturação de empresas, a pandemia apenas acelerou uma transição que já estava em curso. “O consumidor deixou de depender do deslocamento até a loja porque encontrou conveniência no comércio eletrônico”, afirma. Segundo ele, competir apenas em preço e variedade tornou-se inviável diante da escala de marketplaces como Mercado Livre, Amazon, Shein e AliExpress.
Integração físico-digital vira questão de sobrevivência
Diante desse cenário, empresários buscam novos canais. O comerciante Alisan Oliveira de Cardoso, 33 anos, mantém há mais de duas décadas uma loja de móveis no bairro Sítio Cercado, em Curitiba. Seis anos após aderir ao e-commerce, suas vendas cresceram 50%. “A internet nos permitiu alcançar clientes além dos indicados”, relata.
Balotim avalia que a loja física tende a assumir funções complementares, como retirada de compras virtuais, experimentação de produtos e atendimento personalizado. “As empresas que integrarem os ambientes físico e on-line terão vantagem competitiva”, conclui.
No curto prazo, entretanto, o varejo de rua segue sob pressão: demanda enfraquecida, custos em alta e crédito caro formam uma combinação que força os lojistas a repensar rapidamente seus modelos de negócio.
Com informações de Gazeta do Povo