Londres – A Pedra do Altar, bloco de arenito de cerca de seis toneladas que repousa no centro de Stonehenge, provavelmente não foi carregada por geleiras durante a última Era do Gelo, mas transportada por pessoas há aproximadamente 4.500 anos. A conclusão está em pesquisa publicada em 2026 no Journal of Quaternary Science, que utilizou modelagem computacional para reconstruir o avanço das camadas de gelo no período.
Origem a 700 quilômetros do monumento
Análises mineralógicas realizadas em 2024 revelaram que a rocha se formou na Bacia de Orcadian, no nordeste da Escócia, a cerca de 700 km da planície de Salisbury, em Wiltshire, onde Stonehenge foi erguida entre 3.000 a.C. e 1.500 a.C. A distância supera em muito as rotas já conhecidas para outras pedras do sítio: os sarsens foram extraídos em locais próximos e as chamadas “pedras azuis” vieram do atual País de Gales, a cerca de 200 km.
Quatro cenários glaciais descartados
Os autores simularam quatro trajetórias possíveis do gelo na Era do Gelo. Em nenhum cenário as geleiras avançaram em direção ao sul da Inglaterra. Ao contrário, grande parte das massas glaciais do nordeste escocês moveu-se para o norte ou leste, impossibilitando que transportassem naturalmente o bloco até Salisbury.
Logística neolítica em foco
Para o geoquímico Anthony Clarke, da Curtin University, o resultado indica “um nível de planejamento, organização e capacidade técnica muito maior” do que se imaginava para as populações neolíticas. O pesquisador sugere que a escolha do arenito escocês pode ter tido valor simbólico, comparável, segundo ele, a selecionar “mármore italiano para uma bancada de cozinha” nos dias atuais.
Os cientistas avaliam que o traslado pode ter combinado percursos fluviais, costeiros e terrestres, realizado em etapas por diferentes grupos ao longo de vários anos. Evidências pré-históricas indicam que comunidades da região já deslocavam blocos de 25 a 30 toneladas por dezenas de quilômetros, demonstrando tecnologia adequada ao feito.
Além de evidenciar capacidade de engenharia, a possível cooperação entre comunidades separadas por centenas de quilômetros reforça a ideia de redes de contato extensas na Grã-Bretanha neolítica, muito antes do surgimento das grandes civilizações europeias.
Com informações de Gazeta do Povo