Brasília, 2 de junho de 2026 – O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) propôs em 1.º de junho a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre uma lista de produtos brasileiros. A decisão final está marcada para 15 de julho e acendeu o sinal de alerta em parte da indústria nacional.
Quem é afetado
A medida atinge cerca de 25% da pauta exportadora para os EUA – o equivalente a US$ 9,5 bilhões em 2025. Entram na lista máquinas pesadas (tratores, niveladoras), transformadores elétricos, madeira trabalhada, granito beneficiado e etanol.
Os outros 75% – aproximadamente US$ 28,3 bilhões – permanecem isentos. Entre os produtos poupados estão petróleo bruto, celulose, minério de ferro, café, carne bovina, suco de laranja e aviões comerciais.
Números do comércio bilateral
Os Estados Unidos absorvem 10,8% das exportações brasileiras. Em 2025, as vendas da indústria de transformação ao mercado norte-americano recuaram 4,2%, totalizando US$ 30,2 bilhões, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI).
Com a nova tarifa, a alíquota média efetiva sobre as exportações brasileiras subiria de 12,2% para 18,5%.
Possíveis impactos econômicos
Empresas que não conseguirem repassar o aumento de custo podem ter margens comprimidas e perda de mercado, alerta Roberto Simioni, economista-chefe da Blue3 Investimentos. A desvalorização do real diante do dólar, encarecimento de importados e pressões sobre a inflação estão entre os riscos listados.
Sara Paixão, da InvestSmart XP, avalia que os efeitos podem ser limitados pela extensa lista de exceções, mas reconhece que a medida agrava o desgaste na relação bilateral.
Motivos alegados por Washington
A investigação se ampara na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA, que autoriza sanções unilaterais contra práticas consideradas injustas. O relatório preliminar cita, entre outros pontos:
- Suposto prejuízo a empresas de meios de pagamento americanas provocado pelo Pix;
- Ações judiciais contra plataformas de mídia social dos EUA;
- Pendências ambientais relacionadas ao desmatamento;
- Proteção insuficiente à propriedade intelectual;
- Lacunas na reciprocidade tarifária do etanol.
Resposta do governo brasileiro
O Itamaraty classificou a proposta como “descabida” e mencionou superávit de US$ 424,5 bilhões obtido pelos EUA no comércio de bens e serviços com o Brasil desde 2011. Dados oficiais indicam que 76% das importações americanas entram no país sem pagar imposto; a alíquota média efetiva sobre produtos dos EUA é de 3,1%.
Após reunião ministerial, o vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou que a tarifa “não se justifica”.
Espaço para negociação
O texto do USTR ainda passará por consulta pública. O presidente da Amcham Brasil, Abrão Neto, disse ver espaço para um acordo que impeça a adoção das novas tarifas até 15 de julho, data-limite da investigação.
A Câmara de Comércio alerta ainda para a possibilidade de uma segunda investigação, voltada a produtos supostamente ligados a trabalho forçado, que envolveria cerca de 60 países, inclusive o Brasil.
A tramitação segue em Washington; enquanto isso, exportadores aguardam sinais de avanço diplomático para evitar o aumento de custos e a perda de competitividade no maior mercado consumidor do mundo.
Com informações de Gazeta do Povo