Brasília / Washington – A relação entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Donald Trump alcançou o nível mais alto de tensão nos últimos 21 dias, depois de sucessivos episódios diplomáticos, comerciais e políticos que reacenderam o atrito entre Brasil e Estados Unidos.
Expulsão de delegado da PF detonou nova crise
Na segunda-feira, 20 de abril, o Departamento de Estado dos EUA ordenou a saída do delegado da Polícia Federal Marcelo Ivo de Carvalho. Autoridades americanas alegam que o policial auxiliou o Serviço de Imigração na detenção do ex-deputado Alexandre Ramagem, condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por tentativa de golpe e residente em território norte-americano desde dezembro passado.
Em nota publicada no X, o governo Trump afirmou que “nenhum estrangeiro tem o direito de manipular nosso sistema de imigração para burlar pedidos formais de extradição e estender a caça às bruxas política ao território dos EUA”.
Lula reagiu dizendo que poderia aplicar o princípio da reciprocidade. Dois dias depois, em 22 de abril, o diretor-geral da PF, Andrei Passos Rodrigues, anunciou à GloboNews a retirada das credenciais de um adido da Agência de Imigração e Alfândega (ICE) baseado em Brasília. O Itamaraty reforçou, em comunicado, que a decisão norte-americana “não foi precedida de diálogo” e que a reciprocidade será mantida.
Analistas veem escalada, mas não ruptura
Para o economista e doutor em relações internacionais Igor Lucena, a resposta brasileira “tem potencial de ampliar o confronto” e pode provocar nova reação de Washington. Ricardo Caichiolo, professor do Ibmec Brasília, avalia que o vínculo bilateral permanece frágil: “Há tendência de aumento do atrito retórico, porém com manutenção pragmática dos laços comerciais”.
Histórico recente de medidas punitivas
Desde o retorno de Trump à Casa Branca, em janeiro de 2025, foram adotadas diversas ações contra o Brasil:
- Tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, anunciada antes da condenação de Jair Bolsonaro em setembro de 2025;
- Abertura, em julho de 2025, de investigação do Escritório do Representante Comercial (USTR) sobre o Pix e pirataria;
- Sanções econômicas, também em julho, contra o ministro Alexandre de Moraes com base na Lei Magnitsky, estendidas depois à esposa e ao Instituto Lex;
- Revogação de vistos de ministros do STF e de ex-autoridades ligadas ao programa Mais Médicos.
Breve degelo e novo agravamento
Os presidentes sinalizaram aproximação na Assembleia Geral da ONU, em setembro de 2025, e voltaram a conversar em outubro, na Malásia. Como gestos de boa-vontade, Trump suspendeu, em novembro, as tarifas sobre carnes, café e outros alimentos e, em dezembro, retirou Moraes da lista de sanções.
A distensão durou pouco. Em 1.º de abril de 2026, um relatório do Comitê Judiciário da Câmara dos EUA acusou o Estado brasileiro de censura e perseguição política. No mesmo dia, o USTR reiterou críticas ao Pix e à pirataria, e o Departamento de Estado manifestou “sérias preocupações” sobre o relatório dos deputados.
Também em abril, Washington incluiu o Brasil entre os maiores fornecedores de insumos para narcóticos e indicou intenção de classificar as facções PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas, medida rejeitada por Brasília.
Questões eleitorais no horizonte
Especialistas apontam que o embate pode influenciar a campanha presidencial brasileira de outubro. Caichiolo afirma que o Planalto pode explorar o discurso de defesa da soberania, enquanto a oposição deve usar as pressões externas para questionar decisões internas. Lucena acrescenta que a Casa Branca pode apoiar, ainda que indiretamente, candidatos mais alinhados a Trump, como o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Por ora, ambos os governos mantêm o foco no princípio da reciprocidade, sem sinalizar rompimento amplo, mas com margem para novos choques em comércio, liberdade de expressão e política regional.
Com informações de Gazeta do Povo