Dados do Tesouro Nacional indicam que a situação das contas públicas piorou a partir de 2023, contrariando a narrativa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, de que teria havido um “rombo” deixado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Acusações de “maquiagem” e “estupro” das contas
No fim de janeiro, Haddad afirmou que precisou “consertar um rombo fiscal” herdado. No início de fevereiro, foi além: classificou o resultado de 2022 como “estupro das contas públicas” e denunciou suposta “maquiagem contábil” para produzir superávit artificial.
Superávit em 2022, déficit a partir de 2023
Contrariando a acusação, 2022 terminou com superávit primário de 1,25% do Produto Interno Bruto (PIB), o melhor desempenho em oito anos, impulsionado por receitas extraordinárias e pela retomada pós-pandemia. Desde que Lula reassumiu, o saldo mensal só ficou positivo em sete ocasiões, sempre graças a entradas atípicas de receita.
O governo fechou 2024 com déficit primário de 0,40% do PIB e ampliou o vermelho para 0,43% em 2025. Nesse intervalo de 36 meses, a dívida bruta avançou sete pontos percentuais, alcançando 78,7% do PIB — elevação equivalente à verificada nos sete anos anteriores.
Despesa cresce três vezes mais do que no período Bolsonaro
Análise de Alexandre Manoel, sócio da consultoria GIA (Global Intelligence and Analytics), aponta que o principal fator de deterioração é a expansão de gastos permanentes indexados, como benefícios atrelados ao salário mínimo.
Entre 2019 e 2022, a despesa federal subiu 5,6% em termos reais, mesmo com o impacto da pandemia. No terceiro mandato de Lula, o ritmo triplicou: alta real de 15,4% entre 2023 e 2025, incremento de R$ 324,5 bilhões.
De acordo com Manoel, o ajuste necessário para estabilizar a dívida já chega a 4% do PIB, superando o esforço estimado após o governo Dilma Rousseff. Quando Bolsonaro deixou o Planalto, essa necessidade era de 0,7% do PIB.
Semelhanças com os governos Dilma
O comportamento fiscal do atual mandato se distancia dos dois primeiros governos Lula e se aproxima dos resultados obtidos por Dilma. No encerramento de Lula I (2006), a dívida equivalia a 55,5% do PIB; ao transferir o cargo para Dilma, caiu para 51,7%. Dilma recebeu superávit de 2,6% do PIB e deixou déficit de 2,5%, elevando a dívida para 67,6% do PIB.
Dívida pode chegar a 100% do PIB em 2035
Projeções do Boletim Focus, do Banco Central, apontam dívida bruta de 83,8% do PIB no fim deste ano, 90% em 2028 e 100% em 2035. A Instituição Fiscal Independente (IFI) projeta 82,7% em 2026 e até 117,7% em 2035; em cenário adverso, o índice pode alcançar 162,2%.
O déficit nominal — que inclui juros da dívida — saltou de 4,9% do PIB em janeiro de 2023 para 9,3% no encerramento de 2025, o maior patamar do período.
Com informações de Gazeta do Povo