Brasília – O governo brasileiro negou vistos de entrada a dois altos representantes do Departamento de Estado norte-americano, aprofundando a já conturbada relação entre Brasília e Washington. A decisão foi comunicada nesta terça-feira (28) e atinge Riley M. Barnes, subsecretário para Democracia, Direitos Humanos e Trabalho, e Samuel Samson, subsecretário-adjunto do mesmo órgão.
A dupla pretendia visitar o país para reuniões com autoridades eleitorais e para acompanhar procedimentos de segurança do pleito presidencial marcado para outubro. O Palácio do Planalto avaliou a iniciativa como tentativa de ingerência externa no processo eleitoral.
Reação imediata dos Estados Unidos
Poucas horas após o anúncio brasileiro, a Casa Branca renovou a “emergência nacional” em relação ao Brasil – medida decretada em 2025 pelo presidente Donald Trump. À época, o dispositivo sustentou uma sobretaxa de 40% sobre produtos brasileiros, elevada a 50% porque coincidiu com a tarifa global do “Dia da Libertação”. Essas cobranças foram derrubadas pela Suprema Corte dos EUA, e a extensão do decreto, por ora, não restabelece o tarifaço.
Análise de especialistas
Para a professora Ludmila Culpi, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), o veto sinaliza mudança de postura do executivo brasileiro, que, até então, respondia apenas com notas diplomáticas. “A mensagem em Washington é de contra-ataque mais duro”, avaliou.
Ricardo Caichiolo, diretor do Ibmec Brasília, vê o episódio como novo passo numa sequência de retaliações. Ele não descarta sanções pontuais ou tarifas adicionais, embora considere o processo tarifário mais demorado.
Antecedentes do conflito
O atrito ocorre dias depois de o Brasil acionar a Organização Mundial do Comércio contra o recente aumento de tarifas imposto pelos EUA. Desde seu retorno à Casa Branca, em 2025, Trump tem pressionado economicamente o Brasil e também adotado medidas na esfera judicial, como a revogação de vistos de autoridades brasileiras após a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Entre os alvos estiveram o advogado-geral da União, Jorge Messias, e ministros do Supremo Tribunal Federal, como Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso. Moraes também enfrenta processo aberto na Justiça da Flórida por decisões consideradas abusivas por políticos norte-americanos.
Delegação barrada
A intenção de enviar Barnes e Samson foi revelada pelo jornal The Washington Post no sábado (25). O New York Times acrescentou que o Brasil temia que os emisários semeassem dúvidas sobre a confiabilidade das urnas eletrônicas.
No fim de semana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva comentou, sem citar nomes: “Quem de fora quiser se meter nas eleições brasileiras vai apanhar muito”. A fala reforçou a percepção de que a negativa de vistos foi resposta direta à iniciativa norte-americana.
Possíveis desdobramentos
No Congresso dos EUA, o senador Lindsey Graham retomou nesta terça-feira a tramitação de projeto que prevê tarifas secundárias a países que mantêm comércio de petróleo com a Rússia. Caso aprovado, o dispositivo pode elevar em até 100% taxas sobre importações de nações como o Brasil, que comprou 4,5 milhões de m³ de diesel russo nos seis primeiros meses de 2026.
Com o cenário eleitoral brasileiro e os embates comerciais em curso, a expectativa de analistas é de manutenção de clima tenso entre os dois governos nos próximos meses.
Com informações de Gazeta do Povo