Desde que reassumiu a Casa Branca, em janeiro de 2025, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem ampliado a presença militar e a cooperação regional para enfrentar facções criminosas na América Latina. A estratégia agora soma seis frentes simultâneas, que vão de operações navais a acordos de inteligência com governos locais.
1. Novo Comando de Guerra Autônoma
O braço mais recente da ofensiva é o Southern Autonomous Warfare Command (SAWC), anunciado em abril. Vinculada ao Departamento de Guerra, a unidade reúne plataformas autônomas, semiautônomas e não tripuladas para atingir redes de narcotráfico “do fundo do mar ao espaço cibernético”. O SAWC integra o Defense Autonomous Warfare Group (DAWG) e atuará em todo o continente.
2. Facções classificadas como terroristas
A primeira medida de Trump, em 2025, foi rotular grupos latino-americanos como organizações terroristas estrangeiras. Entraram na lista a venezuelana Tren de Aragua, a centro-americana Mara Salvatrucha (MS-13), seis cartéis mexicanos, as haitianas Viv Ansanm e Gran Grif e o Cartel de los Soles, ligado ao regime de Nicolás Maduro. A designação permite congelar bens, tipificar apoio financeiro como crime federal e autorizar ações militares dos EUA onde esses grupos operam.
3. Operação “Lança do Sul” nos mares
Lançada em setembro de 2025, a Operação Southern Spear deslocou o porta-aviões nuclear USS Gerald R. Ford, caças de última geração e drones para o Caribe e o Pacífico Oriental. Conduzida pelo Comando Sul (Southcom), a missão já registrou 52 ataques a embarcações, resultando em 178 mortos até 19 de abril de 2026. A ONU contestou a legalidade da operação, alegando violações de direitos humanos.
4. Captura de Nicolás Maduro
Em janeiro de 2026, forças americanas prenderam o ditador venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, sob acusação de narcotráfico. Segundo a organização InSight Crime, a detenção reduziu o fluxo de drogas na costa venezuelana e forçou o desmonte de acampamentos do ELN.
5. “Escudo das Américas” reúne 17 países
Anunciada em março, a coalizão Escudo das Américas promove troca de inteligência e ações conjuntas entre 17 governos, incluindo Argentina, Chile, Equador, El Salvador e Honduras. Brasil, México e Colômbia ficaram de fora. No mesmo mês, EUA e Equador realizaram o primeiro bombardeio conjunto na fronteira equatoriano-colombiana; reportagem do The New York Times contestou o alvo, apontando possível erro contra uma fazenda de laticínios, versão negada pelo Ministério da Defesa do Equador.
6. Pressão pontual em México, Bolívia, Argentina e Paraguai
No México, a inteligência dos EUA apoiou a operação que matou Nemesio “El Mencho” Oseguera Cervantes, líder do Cartel Jalisco Nova Geração, em 22 de fevereiro. La Paz reativou parceria com a DEA, enquanto Buenos Aires passou a integrar a El Dorado Task Force e rotulou o Cartel de los Soles como terrorista. Já Assunção ratificou o Status of Forces Agreement (SOFA), garantindo imunidade a militares americanos durante missões na região da Tríplice Fronteira.
Impasse com o Brasil
Apesar de lançar, em abril de 2025, o Projeto de Interdição Mútua (MIT) com foco em portos, aeroportos e na Tríplice Fronteira, Washington e Brasília enfrentam atritos. Os EUA cogitam classificar o Comando Vermelho e o PCC como terroristas, medida vista com ressalvas pelo governo Lula. A situação piorou após a detenção do ex-deputado Alexandre Ramagem nos EUA, que resultou na expulsão — de parte a parte — de agentes de segurança de ambos os países.
Especialistas consultados pela reportagem avaliam que, embora os acordos técnicos sejam de longo prazo, ainda não há resultados visíveis da cooperação EUA-Brasil contra o crime organizado.
Com informações de Gazeta do Povo