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Rotas que evitam o Oriente Médio reacendem risco de pirataria na costa da Somália

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Os desvios adotados por companhias de navegação para escapar dos bloqueios e ataques no Oriente Médio colocaram novamente os piratas da Somália no radar do comércio marítimo internacional. Relatório do Centro de Operações de Comércio Marítimo do Reino Unido (UKMTO) informa que pelo menos três embarcações — dois petroleiros e um cargueiro de cimento — encontram-se retidas por grupos criminosos que atuam no litoral somali.

A mudança de rotas ganhou força após o início da guerra no Irã, em 28 de fevereiro de 2026, e os ataques dos houthis iemenitas no Mar Vermelho. Desde 7 de abril, vigora um cessar-fogo tenso, mas o Estreito de Ormuz permanece quase totalmente bloqueado por forças iranianas. Antes do conflito, cerca de 20% do petróleo mundial cruzava esse ponto estratégico.

Menos trânsito no Suez, mais navios no Cabo

Segundo a Autoridade do Canal de Suez, 12,7 mil navios passaram pela via em 2025, menos da metade dos 26 mil registados em 2023. Já a Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos (EIA) calcula que o fluxo de petróleo pelo Estreito de Bab el-Mandeb — porta de entrada para o Mar Vermelho — caiu pela metade no ano passado; até o primeiro semestre de 2023 ele respondia por 12% das remessas globais.

Com o gargalo em Ormuz e os riscos no Mar Vermelho, armadores optam pelo longo trajeto pelo Cabo da Boa Esperança, no sul da África. O percurso, porém, obriga as embarcações a navegarem próximas ao Chifre da África, onde os piratas somalis voltaram a agir.

“Pretexto para se remobilizar”

Em entrevista à CNN, o deputado somali Mohamed Dini afirmou que a crise atual oferece aos piratas “um pretexto para se remobilizar”, ressaltando que parcerias com os houthis ampliam a ameaça. A tendência também foi destacada pelo professor Troels Burchall Henningsen, do Instituto Dinamarquês de Estratégia e Estudos de Guerra, que citou resgates milionários como incentivo para a retomada das quadrilhas.

Resposta internacional

No mês passado, a Operação Atalanta — força naval da União Europeia criada para combater a pirataria na região — libertou um navio de bandeira iraniana capturado na costa somali. A operação reconheceu que a ameaça está distante do auge de 2011, quando 237 ataques foram registrados, mas recomendou às tripulações vigilância constante e relato imediato de atividades suspeitas.

Impacto financeiro e logístico

Para João Alfredo Lopes Nyegray, professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), a combinação de riscos político-militares no Oriente Médio e criminosos no Oceano Índico aumenta custos de combustível, seguro, escolta e manutenção. “A rota escolhida para evitar mísseis e bloqueios pode expor embarcações a sequestro e pedidos de resgate”, observou o especialista em entrevista à Gazeta do Povo.

Nyegray alertou ainda que, se as tensões persistirem, o comércio pode “normalizar a ineficiência”, adaptando contratos, estoques e cadeias de suprimento a trajetos mais longos e caros. “Irã em Ormuz, houthis em Bab el-Mandeb e piratas na Somália exploram a mesma vulnerabilidade: o comércio mundial depende de gargalos estreitos”, concluiu.

Com informações de Gazeta do Povo