Seul – Desde o início do conflito entre Irã, Estados Unidos e Israel, em 28 de fevereiro de 2026, a Coreia do Norte adota uma postura de discrição incomum. O regime de Kim Jong-un, que costuma apoiar Teerã, não enviou armas ao Irã, não apresentou condolências pela morte do aiatolá Ali Khamenei e divulgou apenas dois comunicados oficiais sobre a guerra.
No primeiro, um dia após os ataques, Pyongyang classificou as ações de Washington e Tel Aviv como “atos ilegais de agressão”, sem citar diretamente o então presidente norte-americano Donald Trump. No segundo, em 10 de março, limitou-se a “respeitar” a escolha de Mojtaba Khamenei como novo líder supremo iraniano. Desde então, silenciou.
Objetivo: reabrir canal com Washington
De acordo com o Serviço Nacional de Inteligência sul-coreano (NIS), o silêncio faz parte de uma estratégia para manter aberta a possibilidade de diálogo com os Estados Unidos depois da cúpula prevista para maio entre Trump e o presidente chinês Xi Jinping, em Pequim. A informação foi repassada a parlamentares em sessão reservada, segundo o deputado Park Sun-won.
No Congresso do Partido dos Trabalhadores da Coreia do Norte, em fevereiro, Kim Jong-un já havia sinalizado na mesma direção ao afirmar que não existe motivo para relações hostis com Washington caso os EUA reconheçam o status nuclear de Pyongyang e abandonem “políticas hostis”. O NIS avalia que a declaração foi calculada para preservar o canal diplomático.
Analistas do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) estimam possibilidade de um encontro entre Trump e Kim após a reunião em Pequim. Victor Cha, especialista do CSIS ouvido pelo South China Morning Post, lembra que Trump valoriza as três cúpulas realizadas com Kim em seu primeiro mandato e vê nelas um êxito que pode ser retomado.
Cooperação militar histórica permanece
Apesar da distância momentânea, a parceria militar entre Coreia do Norte e Irã segue evidente, segundo o professor Bruce Bechtol, da Angelo State University. Ele aponta que mísseis iranianos usados no conflito, como o Qiam de curto alcance e o Shahab-3 de médio alcance, derivam de tecnologia norte-coreana Nodong. Pyongyang também teria ajudado a construir fábricas e treinado militares iranianos.
Impacto econômico interno
O confronto no Oriente Médio já pressiona a economia norte-coreana. Monitoramento do portal independente Daily NK indica que, em duas semanas de março, o preço da gasolina subiu 17% e o do diesel, mais de 20%, após a China reduzir o envio de petróleo – reflexo da alta global provocada pela guerra. O dólar valorizou-se no mercado paralelo, encarecendo produtos importados e grãos; o milho, base alimentar da população de baixa renda, aumentou 8,7% no mesmo intervalo.
Diante das restrições, o regime tenta ampliar o suprimento de petróleo vindo da Rússia para compensar a queda no fornecimento chinês, informou o serviço de inteligência sul-coreano.
Testes de armas inspirados em conflitos externos
Centros de pesquisa apontam que a guerra serviu de “laboratório” para Pyongyang. O programa 38 North, do Stimson Center, avalia que a morte de Ali Khamenei reforçou a convicção de Kim sobre a importância do arsenal nuclear e da proteção a sua liderança. Em março, a Coreia do Norte testou novo motor de foguete de combustível sólido para mísseis intercontinentais capazes de carregar múltiplas ogivas, além de mísseis com ogivas de fragmentação, armas eletromagnéticas e bombas de fibra de carbono voltadas a redes elétricas – capacidades que refletem lições tiradas dos conflitos na Ucrânia e agora no Irã.
Enquanto mantém distância oficial do Irã, Pyongyang busca, portanto, reaproximação com Washington, tenta aliviar o impacto econômico interno e segue aprimorando seu arsenal, numa estratégia multifacetada que envolve diplomacia, economia e defesa.
Com informações de Gazeta do Povo