Brasília – Um ano depois de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, instituir uma sobretaxa de 50% sobre produtos brasileiros, a participação norte-americana nas exportações do Brasil caiu para 9,4% no primeiro semestre de 2026, o menor índice desde 1997. O recuo, apontado em levantamento da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil), abriu ainda mais espaço para a China, que passou a responder por 31,5% das vendas externas do país.
Entre janeiro e junho de 2025, os EUA detinham 12,1% das exportações brasileiras, enquanto a China participava com 28,9%. Os novos números, divulgados nesta quarta-feira (8) pela Folha de S. Paulo, evidenciam a aceleração da dependência brasileira do mercado asiático.
Impacto direto no comércio bilateral
As exportações para os Estados Unidos somaram US$ 17,4 bilhões no primeiro semestre, queda de 13% em relação ao mesmo período do ano anterior. No sentido oposto, as vendas totais do Brasil ao exterior cresceram 11,5%, com avanços de 21,9% para a China e de 12,8% para a União Europeia.
A corrente de comércio entre Brasil e EUA (soma de exportações e importações) também encolheu: a fatia norte-americana recuou para 11,1%, o menor patamar da série iniciada em 1997. O saldo continua negativo para o lado brasileiro, com déficit de US$ 1,5 bilhão (cerca de R$ 7,76 bilhões).
Produtos ainda enfrentam sobretaxas
Dados da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) indicam que 25% do valor exportado aos EUA segue sujeito a tarifas extras entre 12,5% e 25%, enquanto outros 20% se enquadram nas regras da Seção 232, direcionadas a setores considerados críticos para a segurança nacional americana.
Couros, revestimentos cerâmicos, mel, sebo bovino, filés de tilápia e alguns tipos de madeira de coníferas estão entre os itens mais afetados. Conforme a Amcham, as exportações de produtos tarifados caíram 20,5% nos 12 meses encerrados em junho.
Busca por novos mercados
Como reação às barreiras, a ApexBrasil realizou mais de 80 ações de promoção comercial no último ano; 72% das empresas apoiadas conseguiram ingressar em pelo menos um novo destino de exportação.
A agência observa que a participação dos EUA já vinha caindo nas últimas duas décadas — de 19% em 2005 para 11% em 2025 —, enquanto a China se consolidou como principal parceiro de 14 estados brasileiros.
Risco de novas tarifas
Para o presidente da Amcham, Abrão Neto, a queda na participação dos EUA “reforça a necessidade de um acordo para evitar a aplicação de novas tarifas” no âmbito da investigação da Seção 301. Caso medidas adicionais sejam adotadas, advertiu, as trocas bilaterais podem sofrer impacto ainda maior.
Mesmo com o recuo, os Estados Unidos permanecem como segundo maior destino das exportações brasileiras, à frente da Argentina, cuja fatia caiu para 4%. A disparada chinesa, contudo, consolida a dependência do Brasil em relação à demanda do país asiático.
Com informações de Gazeta do Povo