Brasília – A reforma tributária chegou a um dos períodos mais delicados para pequenas e microempresas (PMEs), que já enfrentam juros elevados, custos de produção em alta e crédito restrito.
Juros de 24,6% elevam custo do capital
Dados do Banco Central indicam que as taxas de financiamento para empresas com recursos livres alcançaram 24,6% ao ano, uma das maiores marcas desde 2022. A dificuldade de acesso a crédito reflete-se diretamente no fluxo de caixa das PMEs.
Petróleo pressiona insumos e transporte
As tensões no Oriente Médio provocaram aumento de 15,8% no preço do diesel desde o início do conflito, segundo a Agência Nacional do Petróleo (ANP). Já os insumos industriais subiram 2,53% no primeiro trimestre, maior variação para o período desde 2022, de acordo com o IBGE.
Resolução antecipa escolha do regime
A Resolução 186 do Comitê Gestor do Simples Nacional, publicada em 11 de maio, antecipou para setembro de 2026 a definição sobre o regime tributário que valerá a partir de janeiro de 2027. As empresas deverão optar por permanecer no Simples Nacional, aderir ao Simples Híbrido ou migrar para o Lucro Real.
Crescimento desigual entre setores
Levantamento da provedora de sistemas de gestão Omie mostra que, mesmo sob pressão, as PMEs aumentaram a movimentação financeira em 4,5% em relação a 2024. A indústria de transformação avançou 9,7%, enquanto o comércio registrou o quinto recuo trimestral seguido e a infraestrutura encolheu 1,0%, afetada pela Selic de 14,5% ao ano.
Dilema: manter Simples ou migrar
Especialistas alertam que, embora o Simples Nacional preserve alíquotas reduzidas, ele limita o crédito de Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) para os compradores. Para não perder competitividade no mercado B2B, muitas PMEs podem ter de adotar o regime híbrido ou o Lucro Real, arcando com maior carga administrativa.
Liquidez sob risco com o split payment
Independentemente do regime escolhido, todas as empresas terão os tributos retidos automaticamente no momento do pagamento, o chamado split payment. O mecanismo elimina o prazo entre a venda e o recolhimento do imposto, reduzindo o capital de giro e aumentando o risco de falta de caixa imediata.
Seis armadilhas apontadas por consultores
Glaudson Ferreira, especialista da GestãoClick, lista os pontos críticos para a sobrevivência das PMEs:
1) precificação baseada no modelo antigo;
2) tributação em cascata sem crédito;
3) compra de fornecedores informais;
4) descuido com fluxo de caixa;
5) ausência de sistemas integrados;
6) cultura interna que trata tributo apenas como tarefa contábil.
Adaptação ainda lenta
Pesquisa da Omie com 433 gestores revela que 48% das PMEs não iniciaram, ou estão nos primeiros passos de preparação; 29% já ajustam processos. Entre os entrevistados, 68% consideram indispensável um ERP atualizado para a transição até 2033. Apesar de 79% reconhecerem a relevância do apoio contábil, apenas metade participou de reuniões ou eventos sobre o tema.
O prazo encurtado para definir o regime tributário e a combinação de juros altos, combustíveis caros e retenção automática de impostos impõem às PMEs um cenário de margens mais apertadas e necessidade de revisão urgente de processos financeiros e operacionais.
Com informações de Gazeta do Povo