Brasília – A economia brasileira completa mais de 40 anos crescendo abaixo da média global. Dados do Banco Mundial mostram que, de 1980 a 2024, a fatia do Brasil no Produto Interno Bruto (PIB) mundial encolheu de 2,8% para 2,1%, enquanto a expansão anual média ficou em 2,2% – ritmo que coloca o país na 102ª posição entre 153 nações avaliadas.
Perda de fôlego em comparação internacional
Em 1980, o PIB per capita brasileiro equivalia a 20% do norte-americano; em 2024, essa proporção caiu para 14,4%. No mesmo intervalo, a Coreia do Sul saltou de 13,6% para 55,8% da renda per capita dos Estados Unidos. A diferença reflete, segundo a coordenadora do Boletim Macro do FGV Ibre, Silvia Mattos, “o fracasso histórico em ganhos de produtividade”.
Os números reforçam a divergência: em 1950, o trabalhador brasileiro produzia o dobro do coreano; hoje, registra pouco mais de um terço da produtividade sul-coreana.
Da elite à coadjuvância no ranking global
O Brasil foi a 11ª maior economia em 1960 e alcançou o 7º lugar em 1976, quando seu PIB era 98% superior ao da China. O cenário se inverteu em 1988, quando Pequim ultrapassou Brasília. Em 2024, o país ocupa a 9ª colocação, com produção equivalente a pouco mais de um décimo da chinesa.
Projeções modestas para os próximos anos
Estimativas do Conference Board indicam que, em 2024, a economia global deve avançar 2,8%, frente a 1,8% previstos para o Brasil. Para 2027, as taxas projetadas são de 3,0% e 2,2%, respectivamente. Entre 2028 e 2037, o crescimento brasileiro deve ficar abaixo de 2% ao ano, contra 2,5% no mundo.
Fim do bônus demográfico e produtividade travada
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que a parcela de brasileiros com menos de 30 anos caiu de 49,9% em 2012 para 41,4% em 2025. No mesmo período, a população acima de 60 anos subiu de 11,3% para 16,6%. Sem esse impulso demográfico, a expansão depende quase exclusivamente da Produtividade Total dos Fatores (PTF), que avança lentamente.
Levantamento do FGV Ibre revela, de 1995 a 2024, crescimento médio de 5,8% ao ano na agropecuária, queda de 0,3% na indústria e alta de apenas 0,2% nos serviços.
Poupança escassa e investimento abaixo da média
O Brasil investe 17% do PIB, contra 26% da média global, e poupa 14,5%. Desde novembro de 2014, as contas públicas registram déficits contínuos, restringindo a capacidade de investimento. Além disso, subsídios e isenções tributárias consomem 4,4% do PIB, conforme dados da Receita Federal.
Indústria encolhe sob juros altos e câmbio apreciado
Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), o país responde por 1,17% do valor adicionado industrial mundial, a menor participação desde 1990, ocupando a 15ª posição. Nas exportações de manufaturados, permanece no 30º lugar, com 0,92% do total global. Juros elevados, câmbio valorizado e gargalos logísticos são apontados pelo FGV Ibre como os principais entraves.
Potencial limitado sem reformas estruturais
Para o pesquisador do FGV Ibre Samuel Pessôa, sem mudanças profundas, o crescimento potencial do país ficará em torno de 1,5% ao ano – podendo cair para 1,0% se a produtividade não reagir.
Reforma tributária como ponto de partida
Estudo do Fundo Monetário Internacional indica que a simplificação do sistema de impostos poderia elevar o PIB potencial em até 6% no longo prazo, com ganho de pouco mais de 1% na PTF. Ainda assim, especialistas ressaltam a necessidade de outras medidas, como abrir a economia à competição externa, melhorar a qualidade da educação, garantir segurança jurídica e estimular a poupança doméstica.
A despeito das propostas, o consenso entre economistas é que o crescimento sustentado só virá com produtividade maior – desafio que se arrasta há quatro décadas.
Com informações de Gazeta do Povo