Brasília — 11 de abril de 2026. Um levantamento da empresa de tecnologia DataBrasil revela que 895 mil famílias brasileiras obtêm renda superior com a soma de programas sociais do que teriam se trabalhassem com carteira assinada.
De acordo com a nota técnica, o grupo representa 4,41% do total de beneficiários. A combinação de auxílios federais, estaduais e municipais ultrapassa o rendimento líquido estimado de um trabalhador que ganha o salário mínimo, calculado em R$ 1.404,15 para 2025 após descontos.
Acúmulo de programas eleva rendimento
O estudo mostra que, ao ingressar em emprego formal, o trabalhador não perde apenas o Bolsa Família, mas também outros benefícios cujo valor agregado supera o rendimento de quem possui escolaridade semelhante na iniciativa privada.
Em Goiás, por exemplo, uma mãe solo com dois filhos adolescentes pode chegar a R$ 2.090,53 mensais somando Bolsa Família, o programa federal Pé-de-Meia, o auxílio estadual Mães de Goiás, Aluguel Social e Bolsa Estudo — quantia consideravelmente acima da renda líquida de um salário mínimo.
Trabalho juvenil conta, trabalho adulto penaliza
A DataBrasil destaca ainda a diferença de tratamento entre rendimentos. Bolsas de estudo (Cap es/CNPq) e salários de menores aprendizes ou estagiários não são considerados renda laboral para fins de elegibilidade. Dessa forma, a família mantém benefícios se o adolescente trabalha, mas perde tudo se o responsável adulto aceitar emprego formal.
Há casos extremos de doutores bolsistas ou tutores que, legalmente, acumulam bolsas acadêmicas com o Bolsa Família e alcançam renda acima de R$ 5 mil por mês.
Fraude na divisão de lares
O documento também aponta o chamado household splitting fraud, em que membros da mesma residência se registram como famílias diferentes no Cadastro Único para multiplicar benefícios. Estima-se que 1,4 milhão de domicílios omitam o cônjuge com o objetivo de manter a renda per capita dentro do limite exigido.
Consequências para mercado e contas públicas
Segundo os pesquisadores, o atual desenho dos programas cria uma “taxa marginal implícita” sobre o salário: ao aceitar emprego formal, o beneficiário perde boa parte dos auxílios, o que reduz o ganho líquido de trabalhar. Isso gera:
- desestímulo ao emprego com carteira assinada;
- pressão fiscal, pois recursos vão para famílias fora da extrema pobreza, enquanto as que vivem com cerca de R$ 154 por pessoa ficam sem cobertura adequada;
- risco previdenciário futuro, já que a ausência de contribuições formais pode ampliar a dependência de benefícios assistenciais.
O relatório frisa que os programas de transferência são essenciais para a proteção social, mas critica a falta de integração entre eles. Para a DataBrasil, ao tratar rendas de natureza semelhante de forma distinta, o sistema acaba por criar barreiras involuntárias à autonomia econômica dos mais pobres.
Com informações de Gazeta do Povo