Brasília, 24 abr. 2026 – A combinação de petróleo próximo de US$ 100, inflação resistente e expansão fiscal tem reduzido a capacidade de o Brasil suportar novos choques externos, apontam economistas. O receio é que o país acabe enfrentando estagflação – cenário de preços em alta com crescimento fraco.
Petróleo caro pressiona custos
Desde o fim de fevereiro, a tensão entre Estados Unidos, Israel e Irã elevou o barril do Brent para níveis acima de US$ 100. Análise da Allianz Research estima que um bloqueio de seis semanas no Estreito de Ormuz, rota por onde passa parcela expressiva do petróleo mundial, adicionaria entre 0,8 e 1 ponto percentual à inflação dos mercados emergentes. O bloqueio já ultrapassa esse período, elevando a preocupação com combustíveis, fretes e alimentos no Brasil.
Três camadas de proteção ainda ajudam
Apesar do ambiente externo adverso, o país dispõe de alguns amortecedores:
• Exportação líquida de petróleo – Como exportador, o Brasil se beneficia da valorização da commodity, atenuando pressões cambiais. A Allianz Trade classifica o país como “estruturalmente resiliente”.
• Reservas internacionais robustas – O Banco Central detinha US$ 371 bilhões em fevereiro, montante capaz de frear movimentos bruscos no câmbio.
• Juro real elevado – Segundo a Lev Intelligence, a taxa real brasileira está em 9,5% ao ano, a segunda maior do mundo, atraindo capital e reforçando a estabilidade financeira.
Esses fatores diferenciam o Brasil de outros emergentes, mas especialistas observam que a escalada de gastos públicos reduz essa margem de segurança.
BC corta pouco e já enfrenta dilema
O Banco Central iniciou o ciclo de queda dos juros em março, com corte de 0,25 ponto percentual, e o mercado projeta reduções lentas. Caso o choque do petróleo persista, a autoridade monetária pode ser forçada a voltar a elevar a taxa para conter a inflação, o que tende a esfriar ainda mais a atividade. “Qualquer pressão adicional pode exigir aperto”, alerta José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos.
Gasto público cresce na contramão do aperto monetário
Enquanto o BC tenta conter preços, o governo federal amplia despesas. Projeções do Itaú indicam que, em 2026, programas sociais devem adicionar 0,4 ponto percentual ao PIB. Entre as medidas estão o aumento do Bolsa Família de R$ 600 para R$ 650, a redução da fila do INSS, a ampliação do Benefício de Prestação Continuada (BPC) e o programa Pé-de-Meia, que paga estudantes do ensino médio.
O mesmo estudo calcula que, para estabilizar a dívida bruta em 87,2% do PIB até 2027, seria necessário um ajuste fiscal de quatro pontos percentuais – caminho oposto ao seguido pela administração Lula.
Lição de crises passadas
Analistas lembram que, nos anos 1970, a manutenção de juros baixos por tempo excessivo em meio a choques de oferta alimentou a estagflação global. No Brasil, experiência similar ocorreu em 2014-2015, quando despesas elevadas coincidiram com queda do petróleo e inflação alta, resultando em recessão profunda e desemprego recorde.
Hoje, a conjuntura é diferente porque o preço do petróleo está em alta, mas o crescimento das despesas obrigatórias volta a pressionar as contas públicas. “A política fiscal já opera no limite e dificulta qualquer alívio via subsídios”, observa Rodrigo Marques, economista-chefe da Nest Asset.
Com pressões externas maiores e espaço fiscal menor, a economia brasileira entra em um período de maior vulnerabilidade a choques de oferta, o que mantém aceso o alerta dos analistas para o risco de estagflação.
Com informações de Gazeta do Povo