O Banco Central (BC) advertiu que os juros básicos no Brasil poderão permanecer altos por mais tempo do que o mercado vinha projetando. A mensagem consta da ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) realizada na semana passada e divulgada nesta terça-feira (23), uma semana após o colegiado reduzir a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,25% ao ano.
Segundo o documento, a permanência da inflação acima da meta de 3% e o desancoramento das expectativas exigem uma postura monetária “mais rígida e prolongada”. O Copom frisou que o corte recente não significa mudança de direção e afastou a possibilidade de acelerar o ritmo de redução ou encerrar em breve o ciclo de queda dos juros.
Inflação e expectativas
As projeções internas do BC apontam inflação de 5,2% em 2026 e de 3,7% no quarto trimestre de 2027, ambos acima do centro da meta. O colegiado destacou que os índices cheios e as medidas subjacentes de inflação voltaram a acelerar, superando o teto da meta na leitura mais recente.
Para o Copom, em um ambiente com expectativas de inflação desancoradas, “exige-se uma restrição monetária maior e por mais tempo”. O comitê também citou pressões decorrentes de um mercado de trabalho resiliente e de setores sensíveis ao ciclo econômico que exibem retomada da atividade.
Política fiscal e juro neutro
A ata voltou a apontar a política fiscal como fator de preocupação. Dúvidas sobre a sustentabilidade da dívida pública e o enfraquecimento de reformas estruturais podem elevar a taxa de juros neutra, reduzindo a eficácia da política monetária no controle dos preços.
O colegiado reiterou a necessidade de “políticas fiscal e monetária harmoniosas” e reforçou que as ações precisam ser “previsíveis, críveis e anticíclicas”. Embora o aperto monetário já provoque desaceleração do crédito e moderação gradual da atividade, o Copom avalia que esses efeitos ainda não garantem a convergência rápida da inflação para a meta.
Cenário externo e riscos
No front internacional, o BC observa incertezas elevadas provocadas por tensões geopolíticas, volatilidade das commodities e oscilações nos mercados financeiros. O recente acordo entre Estados Unidos e Irã para encerrar a guerra no Oriente Médio, diz o texto, ainda não foi incorporado às projeções.
Entre os riscos altistas para a inflação, o comitê lista: persistência da desancoragem das expectativas, resistência da inflação de serviços, possíveis pressões cambiais e estímulos à demanda acima da capacidade de crescimento. No campo baixista, cita uma desaceleração doméstica mais forte, um agravamento do cenário global ou recuos adicionais nos preços das commodities.
O Copom concluiu que continuará monitorando a evolução dos dados e avaliando a necessidade de manter a taxa Selic em patamar elevado até que haja sinais claros de convergência da inflação para a meta estabelecida.
Com informações de Gazeta do Povo