A combinação de baixa natalidade e envelhecimento acelerado da população passa de desafio social a risco concreto para o crescimento econômico e para o equilíbrio das contas públicas do Brasil. O alerta é feito por especialistas que enxergam, a partir de 2026, o fim do chamado bônus demográfico e a necessidade de políticas voltadas à ampliação da população economicamente ativa.
Menos jovens, mais aposentados
Com proporção cada vez menor de pessoas em idade de trabalhar e maior número de aposentados, o país tende a registrar menor produtividade e maior pressão sobre os sistemas de Previdência, saúde e assistência social.
“À medida que as famílias encolhem, o Estado assume funções de cuidado antes exercidas por redes familiares”, observa o doutor em Administração Pedro Hollanda. Segundo ele, o encolhimento da força de trabalho ocorre exatamente quando o gasto público com benefícios e atendimento médico cresce de forma estrutural.
Efeitos sobre educação e mercado de trabalho
Para o sociólogo Marcelo Couto, o enfraquecimento dos vínculos familiares também provoca repercussões indiretas, como evasão escolar, baixo desempenho acadêmico e dificuldades de inserção no mercado de trabalho — fatores que comprometem a produtividade de longo prazo. “Quando a família não cumpre plenamente seu papel, sobra para o Estado intervir”, resume.
Produtividade estagnada
Dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) colocam o Brasil na 94ª posição em produtividade do trabalho entre 184 economias. O indicador, que divide o Produto Interno Bruto (PIB) pelo total de horas efetivamente trabalhadas, mostra rendimento médio de US$ 21,1 por hora, contra US$ 81,8 nos Estados Unidos e US$ 164,6 na Irlanda. Mesmo vizinhos regionais, como a Argentina, registram desempenho superior (US$ 33,8).
O contraste se agrava porque os brasileiros trabalham, em média, 38,9 horas por semana — mais do que norte-americanos (37,5 horas) e argentinos (36,5 horas). “O problema central não é esforço, é eficiência”, ressalta Hollanda. Sem ganhos de produtividade, o país pode crescer menos justamente quando terá menos trabalhadores para sustentar a economia.
Limites das políticas de incentivo
De acordo com Couto, incentivos estatais têm alcance limitado para reverter a queda da natalidade, pois a decisão de ter filhos envolve fatores culturais e subjetivos. Pesquisas mostram diferença entre o número de filhos desejado e o efetivamente tido, atribuída a custos de criação, instabilidade profissional e insegurança futura.
Há, porém, espaço para reduzir barreiras práticas. Hollanda cita o teletrabalho como exemplo: estudo da National Bureau of Economic Research, divulgado em março de 2026, apontou aumento médio de 0,32 filho por mulher quando ambos os parceiros trabalham de casa um ou mais dias por semana.
Necessidade de estratégia de longo prazo
Especialistas são unânimes: políticas voltadas à natalidade só produzem resultados quando estruturadas como políticas de Estado, com estabilidade e horizonte de longo prazo. Investimentos contínuos em creches, educação, saúde e serviços de cuidado reduzem a insegurança familiar. “A decisão de ter um filho é para a vida toda; programas pontuais dificilmente mudam a trajetória demográfica”, afirma Couto.
O debate — evitado até agora — deverá ganhar centralidade nos próximos governos, que enfrentarão o desafio de sustentar o crescimento com menos trabalhadores ativos e mais dependentes de benefícios públicos.
Com informações de Gazeta do Povo