A insuficiência de investimentos em infraestrutura impõe ao Brasil um prejuízo estimado em R$ 284 bilhões anuais, calcula estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI) em parceria com o Movimento Brasil Competitivo. O montante reflete estradas deterioradas, portos sobrecarregados e tarifas de energia em alta, fatores que reduzem a produtividade e encarecem a logística das empresas.
Investimento menor que o necessário
Levantamento da Inter.B Consultoria aponta que o estoque de capital em infraestrutura permanece estagnado entre 35% e 40% do Produto Interno Bruto (PIB) desde os anos 2000. Para alcançar o patamar considerado ideal, de 63,7% em duas décadas, seriam precisos aportes equivalentes a 4,65% do PIB ao ano. Em 2024, entretanto, os investimentos somaram R$ 266,8 bilhões — apenas 2,27% do PIB —, sendo 70,5% provenientes da iniciativa privada.
Além do volume reduzido, 61,7% dos recursos serviram apenas para repor a depreciação de ativos antigos, restringindo a expansão efetiva dos serviços. Para 2025, a Inter.B estima R$ 277,9 bilhões em investimentos, queda proporcional para 2,19% do PIB.
Transporte concentra maior hiato
O setor de transportes deverá receber R$ 90 bilhões em 2025, mas mais da metade (R$ 46,4 bilhões) seguirá para rodovias. O país depende de uma malha federal de 65,7 mil quilômetros pavimentados, dos quais cerca de 14 mil estão concedidos à iniciativa privada. Para melhorar as condições das vias, o governo federal projeta até 36 leilões de concessão rodoviária até o fim deste ano, incluindo a recente licitação da Rodovia Fernão Dias, que liga São Paulo a Belo Horizonte.
Nos portos, o regime de Terminais de Uso Privado (TUPs) impulsionou melhorias, como a inédita concessão do canal de acesso ao Porto de Paranaguá (PR). Já as hidrovias receberam cerca de R$ 700 milhões em 2024, enquanto a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) planeja novas Parcerias Público-Privadas para os rios Paraguai e Madeira.
O modal ferroviário reage com aportes de R$ 17,9 bilhões em 2024, viabilizados por renovações antecipadas de concessões. Projetos como a Ferrovia de Integração do Centro-Oeste (Fico 1) avançam com capital privado, e o programa federal Pró-Trilhos já autorizou mais de 40 iniciativas, muitas ainda sem viabilidade financeira garantida.
Energia e saneamento
Com R$ 113 bilhões esperados para 2025, o setor elétrico lidera a atração de recursos. A expansão acelerada de fontes intermitentes, contudo, elevou o custo das tarifas. No ano passado, o curtailment — corte forçado de geração — atingiu 20,6% da capacidade eólica e solar, provocando prejuízo estimado em R$ 6,5 bilhões.
No saneamento, o novo marco legal estimulou investimentos e possibilitou, por exemplo, a privatização da Sabesp. O desafio inclui desativar quase 3 mil lixões e construir galerias pluviais para reduzir enchentes que paralisam centros urbanos.
Comparação internacional e entraves internos
Durante fases de industrialização, Coreia do Sul e China destinaram de 7% a 9% de seus PIBs anuais à infraestrutura. Para igualar essa densidade de capital e diminuir o chamado “Custo Brasil”, o país precisaria investir entre 4% e 6% do PIB por 20 anos consecutivos. Atualmente, a China mantém 39 grandes projetos de infraestrutura, transmissão e energia em execução no território brasileiro.
O espaço fiscal do Estado é limitado: a dívida pública federal está em R$ 8,63 trilhões e empresas estatais, como os Correios, acumulam déficits que chegam a R$ 8,5 bilhões. Diante disso, especialistas defendem ampliar Parcerias Público-Privadas, assegurar estabilidade regulatória e reduzir insegurança jurídica para atrair capital privado.
“Nosso problema de infraestrutura não é de programa, mas de agenda”, resume o economista Claudio Frischtak, presidente da Inter.B. Ele reforça que blindar agências reguladoras contra interferências políticas e acelerar a revisão de decisões judiciais são passos fundamentais para destravar investimentos.
A falta de infraestrutura, portanto, continua a pressionar custos logísticos, diminuir a competitividade e frear o crescimento econômico, exigindo ações coordenadas entre setor público e iniciativa privada.
Com informações de Gazeta do Povo