Um aumento tarifário de 25% aplicado pelos Estados Unidos sobre uma nova lista de produtos brasileiros coloca em risco exportações equivalentes a US$ 11 bilhões, de acordo com estimativa da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham). A medida, anunciada neste mês pela Casa Branca, atinge principalmente os setores de máquinas, calçados e móveis.
Alcance e setores mais afetados
Máquinas e equipamentos são considerados o elo mais vulnerável. Dados da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) mostram que, em 2025, o Brasil vendeu US$ 3,2 bilhões em máquinas, enquanto as importações norte-americanas do segmento somaram US$ 4,8 bilhões. Boa parte dessas transações ocorre dentro de um mesmo grupo empresarial, refletindo cadeias produtivas integradas entre os dois países.
Além do setor de máquinas, fabricantes de calçados e móveis também devem sentir o impacto. Entre 2024 e 2026, a participação dos Estados Unidos nas exportações moveleiras nacionais caiu de 28,3% para 16,5%, enquanto a América Latina avançou de 53,1% para 64,5% do total.
Visões divergentes sobre o efeito macroeconômico
Para Alexandre Chaia, professor do Insper, o efeito geral tende a ser limitado porque itens de maior peso na pauta — como café, petróleo, carne bovina, aviões comerciais e celulose — ficaram fora da nova cobrança. “Há mais motivação política do que prática; os EUA dependem desses produtos”, afirma.
Já Ricardo Alban, presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), avalia que o impacto será amplo. Ele lembra que 20 das 27 unidades da federação reduziram vendas aos EUA no primeiro semestre e que o comércio bilateral recuou 13% no ano, levando a participação norte-americana no fluxo externo brasileiro ao menor nível desde 1997.
Queda nas exportações industriais
A retração é puxada, sobretudo, pela diminuição de 8,7% nas vendas de bens industriais, em especial semimanufaturados de ferro e aço, ferro-gusa, pasta química de madeira não conífera e óleos de petróleo. Segundo Humberto Aillon, da Fipecafi, o “tarifaço” restringe importações, arrefece a atividade e abala a confiança num cenário de juros altos, retirando fôlego de um PIB já desacelerado.
Resposta do governo e custo fiscal
Para mitigar perdas, o Planalto anunciou o plano “Brasil Soberano”, que prevê linhas de crédito do BNDES e outros subsídios aos ramos mais atingidos. Especialistas alertam, contudo, que esses incentivos podem aumentar o custo fiscal.
Risco de retaliação e novas sobretaxas
O governo brasileiro estuda acionar a Lei de Reciprocidade Econômica, mas a estratégia divide analistas. Chaia classifica a retaliação como “acréscimo de combustível ao fogo”, enquanto o advogado Leonardo Roesler, do escritório RCA, defende a manutenção de canais diplomáticos abertos.
A preocupação cresce porque outra investigação norte-americana, conduzida sob a Seção 301 por suspeita de uso de trabalho forçado, pode adicionar mais 12,5 pontos percentuais às tarifas, elevando a sobretaxa total a 37,5% sobre produtos brasileiros.
Perspectiva de reversão remota
Raquel Borges de Sá, estrategista da XP Investimentos, avalia que a reversão das tarifas é pouco provável no curto prazo, pois o processo foi conduzido pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) com base institucional robusta. Abrão Neto, presidente da Amcham Brasil, reforça que o diálogo bilateral é urgente diante da possibilidade de novas penalidades.
No mercado interno, analistas não descartam queda de preços de alguns itens, resultado de excesso de oferta caso parte da produção volte ao país. Mesmo assim, a indústria de transformação — responsável por 84% do que o Brasil exporta aos EUA — segue como a maior prejudicada.
Com informações de Gazeta do Povo