Roma, 2 jul. 2026 – A Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) realizou na quarta-feira (1.º) a consagração de quatro bispos em Écône, na Suíça, sem o mandato do Papa Leão XIV. O ato, classificado pelo direito canônico como ilícito, implica excomunhão automática para os dois bispos que presidiram o rito e para os quatro ordenados, e reacende a possibilidade de o Vaticano declarar formalmente um cisma.
A cerimônia repetiu, 38 anos depois, o gesto do arcebispo Marcel Lefebvre, fundador da FSSPX, que em 1988 ordenou bispos sem permissão da Santa Sé. Na ocasião, São João Paulo II respondeu dois dias depois com o motu proprio Ecclesia Dei, reconhecendo uma “ruptura” na comunhão eclesial.
Quem celebrou
O principal consagrante foi o bispo espanhol Alfonso de Galarreta, auxiliado pelo suíço Bernard Fellay — os dois sobreviventes das consagrações ilegítimas de 1988. Foram elevados ao episcopado:
- Pascal Schreiber – suíço
- Michael Goldade – norte-americano
- Michel Poinsinet de Sivry – francês
- Marc Hanappier – francês
Todos atuarão como auxiliares da fraternidade, que estima ter cerca de 600 mil fiéis em todo o mundo.
Cenário do rito
Realizada ao ar livre, a missa reuniu cerca de 17 mil pessoas de 70 países. A data escolhida – festa do Preciosíssimo Sangue de Cristo – e diversos objetos litúrgicos evocaram deliberadamente as consagrações de 1988: o mesmo trono, as mesmas vestes episcopais e até a venda de um vinho comemorativo, o “Cuvée des Sacres”, a 75 francos suíços (aprox. R$ 460) a caixa.
Todo o rito foi celebrado em latim, de costas para os fiéis, segundo a liturgia pré-conciliar. Embora a forma sacramental seja reconhecida como válida, faltou o requisito essencial: a autorização do pontífice.
Advertência papal ignorada
Na véspera, o Papa Leão XIV enviou um apelo “paternal” alertando para o “pecado de extrema gravidade” que seria cometido. Mesmo assim, a FSSPX prosseguiu. O Vaticano ainda não divulgou a reação oficial, mas nos dias anteriores deixou claro que poderia qualificar a ação como cisma.
Argumento de “estado de necessidade”
No início da celebração, o superior geral da fraternidade, padre Davide Pagliarani, defendeu a canonização de Lefebvre e justificou as ordenações alegando um “estado de necessidade” na Igreja. Ele reiterou críticas ao Concílio Vaticano II, especialmente ao documento Dignitatis Humanae sobre liberdade religiosa, e afirmou que as autoridades eclesiásticas “agem contra a santa tradição”.
Implicações canônicas
De acordo com canonistas consultados pela ACI Prensa, a excomunhão atinge apenas os bispos envolvidos diretamente. Fiéis que participaram da missa não incorrem automaticamente na pena, a menos que rejeitem explicitamente a autoridade do Papa.
Atualmente, padres da FSSPX estão suspensos de ordens, mas o Papa Francisco havia concedido a eles faculdades para ouvir confissões e assistir casamentos. Caso o Vaticano declare cisma, esses privilégios poderão ser revistos, aprofundando o isolamento da fraternidade.
Com informações de Gazeta do Povo