Teerã – Uma corrente ainda mais rígida dentro do regime iraniano, a Frente de Sustentabilidade da Revolução Islâmica (Frente Paydari), tem atrapalhado os esforços para um acordo que encerre a guerra iniciada em 28 de fevereiro entre Irã, Estados Unidos e Israel.
Origem e ascensão
Fundada como lista eleitoral nas legislativas de 2012, a Frente Paydari ganhou espaço no núcleo do poder iraniano. Seu principal mentor ideológico, o aiatolá Mohammad-Taqi Mesbah-Yazdi, morreu em 2021, mas deixou discípulos estratégicos — entre eles Mojtaba Khamenei, que se tornou líder supremo após o assassinato de seu pai, Ali Khamenei, no primeiro dia do conflito.
Mojtaba é visto como patrono político e financeiro do grupo, apontado pelos integrantes como o guardião da “identidade revolucionária” do país.
Influência na Guarda Revolucionária
Reportagem da revista The Economist, de 2024, revelou que a geração mais recente de comandantes da Guarda Revolucionária participou de acampamentos de verão dirigidos por clérigos ligados à Frente Paydari. O resultado, segundo o pesquisador Saeid Golkar, da Universidade do Tennessee, é um corpo militar mais ideológico, agressivo e menos pragmático.
Sabotagem nas conversas de paz
Apesar da postura dura, membros da facção integraram a delegação iraniana que se reuniu com negociadores americanos no Paquistão, em abril. O objetivo oficial era mostrar unidade interna, mas a participação se transformou em obstáculo: em editorial divulgado no início de maio, o portal Raja News, porta-voz da Frente, defendeu a interrupção imediata das tratativas.
No texto, o site atacou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump; o premiê israelense, Benjamin Netanyahu; e o secretário da Guerra americano, Pete Hegseth, acusando-os de “falar abertamente” sobre assassinar autoridades iranianas.
Conflitos internos
No X (antigo Twitter), o deputado Seyyed Mahmoud Naboyan, ligado à Frente Paydari, pediu a exclusão de representantes que negociaram o pacto nuclear de 2015 das atuais conversas. Ele criticou o presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf — alvo frequente do grupo — e declarou não haver “esperança” de um acordo favorável ao Irã.
Análise de especialista
Para Sandro Teixeira Moita, professor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), dois fatores explicam a força recente da Frente Paydari: o apoio direto de Mojtaba Khamenei e a eliminação de grande parte da antiga cúpula iraniana durante a guerra, o que abriu espaço para novos nomes. “Eles acreditam que os EUA deveriam capitular”, disse o pesquisador, ressaltando que, embora ainda minoritária, a facção representa “grande risco” de radicalização futura.
Mesmo que o conflito termine, a Frente Paydari promete manter a “guerra moral” contra o Ocidente, defendendo uma confrontação ampla como forma de avançar a revolução iraniana.
Com informações de Gazeta do Povo