Brasília – A Rússia quer ampliar sua presença no setor nuclear brasileiro. A intenção foi anunciada na última semana de maio de 2026, durante reunião da Comissão Intergovernamental Russo-Brasileira de Comércio e Cooperação Econômica, Científica e Técnica, realizada em Brasília.
O ministro do Desenvolvimento Econômico russo, Maxim Reshetnikov, afirmou que Moscou enxerga “perspectivas na construção de novas unidades de energia projetadas na Rússia, de grande e de pequena capacidade” em território brasileiro. A iniciativa seria conduzida pela estatal Rosatom, que já fornece radioisótopos para a medicina nuclear no Brasil e serviços de enriquecimento de urânio para combustível das usinas de Angra dos Reis.
Cooperação já em curso
Em dezembro de 2022, a subsidiária da Rosatom, Tekhsnabexport (TENEX), assinou contrato com as Indústrias Nucleares do Brasil (INB) para prestar serviços de enriquecimento de urânio até 2027. Outra subsidiária da companhia também envia produtos isotópicos ao país.
Pressão no Ocidente amplia foco no Sul Global
Relatório do Center for Strategic and International Studies (CSIS) aponta que, após sanções e perdas de contratos no Ocidente — como o cancelamento pela Finlândia da usina de Hanhikivi em 2022 —, Moscou passou a priorizar acordos com nações do Sul Global que mantêm relações amistosas. O documento lista 20 reatores em construção pela Rússia em Bangladesh, China, Egito, Hungria, Índia, Irã e Turquia.
Apesar da aprovação, em 2024, da Lei de Proibição das Importações de Urânio pelos Estados Unidos, compras do produto russo ainda são permitidas até 2027 sob regime de isenções.
Peso geopolítico da tecnologia russa
O coronel da reserva e especialista em relações internacionais Marco Antonio de Freitas Coutinho lembra que a Rússia detém 44% da capacidade global de enriquecimento de urânio. “Isso confere a Moscou influência energética em praticamente todas as matrizes”, disse.
Para o professor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), Sandro Teixeira Moita, o mercado nuclear vive forte disputa entre russos e franceses, impulsionada pela busca de alternativas ao petróleo.
Interesse na tecnologia brasileira
Moita avalia que Moscou também mira o know-how nacional em centrífugas de urânio, consideradas até 80% mais baratas que modelos americanos ou franceses. Segundo ele, a inspeção da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) no Brasil, entre 2004 e 2006, ocorreu sob pressão de potências interessadas em conhecer o equipamento brasileiro.
Risco de sanções
A possível ampliação do acordo preocupa por eventuais reações de Washington. Em 2025, o presidente americano Donald Trump ameaçou tarifas de 100% a países que continuassem comprando energia russa; Índia chegou a ser sobretaxada em 50% e só teve alívio neste ano após se comprometer a interromper compras de petróleo de Moscou.
Moita ressalta que, dependendo do formato da cooperação nuclear, o Brasil pode se tornar alvo de medidas semelhantes, apesar de ter firmado acordos que vedam a produção de armas atômicas.
Vertente militar segue incerta
Os analistas divergem sobre eventual extensão da parceria para fins militares. Moita não observa sinais de cooperação bélica; já Coutinho afirma que Moscou costuma buscar acordos de defesa em alto nível, ainda que sua concretização dependa do interesse brasileiro.
A aproximação ocorre após encontros sucessivos: a visita do então presidente Jair Bolsonaro a Vladimir Putin em 2022, a reunião do vice-presidente Geraldo Alckmin com o premiê russo Mikhail Mishustin em fevereiro deste ano e o encontro entre Lula e Putin em Moscou, em maio de 2025.
Embora potencialmente vantajosa para o programa nuclear brasileiro, a parceria com a Rússia poderá testar a habilidade diplomática do Planalto em equilibrar interesses energéticos e pressões de potências rivais.
Com informações de Gazeta do Povo