O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tem encontro agendado para esta terça-feira, 26 de maio, com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na Casa Branca. A reunião, ainda ausente da agenda pública norte-americana, é considerada incomum por envolver um chefe de Estado em exercício e um pré-candidato à Presidência de outro país, sinalizando possível endosso de Washington à campanha brasileira de 2026.
Flávio desembarcou em Washington na manhã desta segunda-feira (25) e pretende retornar ao Brasil na quarta-feira (27). Segundo assessores, o convite partiu da Casa Branca e foi articulado pelo secretário de Estado, Marco Rubio, com a participação do deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP).
Reunião sob risco de adiamento
O encontro pode ser cancelado caso avancem as negociações de paz entre Estados Unidos e Irã, prioridade momentânea do governo norte-americano. Mesmo assim, aliados do senador mantêm a expectativa de uma foto no Salão Oval, que, se confirmada, reforçaria o elo entre as famílias Bolsonaro e Trump.
Trump e o histórico de apoios internacionais
Desde que voltou à Casa Branca em 2025, Trump tem abençoado candidaturas conservadoras no exterior com resultados variados. O gesto funcionou para Javier Milei na Argentina e para Karol Nawrocki na Polônia, além de sustentar Benjamin Netanyahu em Israel. Já Viktor Orbán, na Hungria, e George Simion, na Romênia, acabaram derrotados, enquanto o partido AfD, na Alemanha, cresceu mas permaneceu fora do governo — em todos os casos, analistas atribuíram parte da rejeição ao carimbo “MAGA”.
No Brasil, Jair Bolsonaro recebeu apoio público de Trump às vésperas do primeiro turno de 2022, sem efeito mensurável sobre o resultado. Pesquisas posteriores mostraram que o aval americano mobiliza eleitores de direita, mas também desperta resistência em parte do eleitorado, que vê na iniciativa ingerência externa.
Resposta à visita de Lula a Washington
Integrantes do PL enxergam a viagem de Flávio como contraponto direto à reunião entre Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), realizada no início de maio. Na ocasião, Lula pediu ao líder republicano que evitasse interferir na disputa eleitoral brasileira, além de tratar de comércio bilateral e tensões entre o Supremo Tribunal Federal (STF) e plataformas digitais norte-americanas.
Desde que circulou a informação sobre a ida de Flávio à Casa Branca, o Planalto estaria monitorando os movimentos do adversário, apurou a reportagem, inclusive por meio do empresário Joesley Batista, que ajudou a articular o encontro de Lula com Trump.
Investida dos EUA na América Latina
A aproximação com Flávio ocorre enquanto Washington intensifica a pressão sobre governos e lideranças de esquerda na região. O ex-presidente cubano Raúl Castro tornou-se alvo da Justiça norte-americana, e o regime venezuelano enfrenta sanções ampliadas após a captura de Nicolás Maduro. Paralelamente, Trump consolida alianças com El Salvador, Argentina e Paraguai para limitar a presença chinesa e explorar reservas latino-americanas de terras raras e minerais críticos.
Análise: cálculo político e gestão de crise
Para Márcio Coimbra, presidente do think tank Monitor da Democracia, Flávio busca um “fato novo e impactante” em meio ao desgaste provocado pelas conversas reveladas com o banqueiro Daniel Vorcaro. “A foto com Trump injeta ânimo na base e projeta o senador como interlocutor internacional”, avalia.
O cientista político alerta, contudo, que a estratégia exige equilíbrio: “Ele precisa mobilizar o eleitorado de direita sem reproduzir radicalismos que afastem o centro”.
Raridade diplomática
Daniel Afonso Silva, professor de Relações Internacionais da USP, destaca que encontros formais entre um presidente norte-americano em exercício e um candidato estrangeiro são “excepcionais”. Geralmente, explicou, a Casa Branca recebe parlamentares ou convida políticos para eventos acadêmicos, não para audiências oficiais.
Silva acredita que o desconforto de Trump com decisões do STF sobre plataformas digitais — consideradas censura por setores conservadores nos EUA — também pesa na agenda. Ele lembra que o republicano nunca digeriu totalmente a prisão de Jair Bolsonaro.
Pauta de segurança e crime organizado
Além de política externa, Flávio deverá tratar da ofensiva norte-americana contra facções latino-americanas. Washington pressiona países da região a classificar grupos como PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas, o que abriria caminho para cooperação operacional e aplicação de sanções. O governo Lula resiste, temendo ingerência externa, enquanto a direita vê na medida uma oportunidade de reforçar o combate ao crime.
Caso se concretize, a audiência poderá ser usada pela campanha do PL como prova de “trânsito livre” na mais alta esfera de poder dos EUA. Rivais, porém, apontam possível questionamento jurídico e eleitoral se houver manifestação explícita de apoio de Trump.
Flávio permanece em Washington até quarta-feira, mantendo agenda reservada com parlamentares republicanos e empresários do setor de energia. A confirmação definitiva do encontro com Trump deve sair apenas horas antes do horário previsto.
Com informações de Gazeta do Povo