O áudio divulgado em 13 de maio envolvendo o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro desencadeou uma rápida mudança de humor no mercado financeiro. Desde então, a Faria Lima passou a ajustar preços diante da maior incerteza eleitoral, movimento reforçado nesta terça-feira (19) com a nova pesquisa AtlasIntel/Bloomberg.
Reação imediata
No dia em que o The Intercept revelou a conversa sobre o financiamento de um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, o real perdeu mais de 2% e o dólar rompeu a barreira psicológica dos R$ 5,00. O Ibovespa recuou e as taxas de juros futuros avançaram, sinalizando aumento do prêmio de risco político.
Até o início da tarde desta terça-feira (19), o principal índice da B3 caía entre 1% e 1,3%, rondando os 174 mil pontos, enquanto o dólar comercial subia cerca de 0,5%, cotado próximo de R$ 5,03.
Apostas eleitorais pressionadas
O levantamento AtlasIntel divulgado nesta terça apontou queda de seis pontos percentuais nas intenções de voto de Flávio Bolsonaro. O resultado intensificou a reprecificação vista na plataforma de apostas Polymarket, que movimenta cerca de US$ 79 milhões em contratos ligados à eleição de 2026.
Duas semanas atrás, o senador aparecia com 44% de probabilidade implícita de vitória, contra 37% de Luiz Inácio Lula da Silva. Na véspera da divulgação do áudio, a diferença já era de 41% a 40%. Após o episódio, Flávio tocou 28% em seu pior momento, enquanto Lula subiu a 44%. Hoje, o presidente lidera com cerca de 45%, e o parlamentar oscila entre 28% e 30%.
Saída de capital estrangeiro
Rodrigo Miotto, da Nippur Finanças, observa que a turbulência coincide com 17 sessões consecutivas de retirada de recursos estrangeiros da B3, após quase 70 dias de fluxo positivo. “Isso pressiona o câmbio, torna o dólar mais escasso e explica a cotação acima de R$ 5”, afirma.
Preocupação fiscal no centro
Para Carlos Henrique, consultor financeiro empresarial, o mercado vinha atribuindo prêmio menor a uma possível vitória de um candidato considerado mais alinhado à agenda liberal. “Quando a viabilidade desse nome diminui, o ajuste nos preços é automático”, diz.
Fábio Murad, da Ipê Avaliações, acrescenta que a correção reflete a perda de previsibilidade sobre quem poderia sustentar metas fiscais, conter a dívida pública e limitar a expansão de gastos obrigatórios. “O mercado passou a operar em modo de eleição antecipada”, resume.
Risco de expansão de gastos
Miotto vê ainda espaço para que o governo amplie despesas diante do enfraquecimento do principal adversário. “Com menor pressão eleitoral, o Planalto pode adotar política fiscal mais expansionista até outubro”, avalia, lembrando que o endividamento já está elevado.
Cenário político fragmentado
A revelação do áudio também estimulou a busca por alternativas dentro da direita. O governador mineiro Romeu Zema classificou a atitude de Flávio como “imperdoável”, e nomes como o influenciador Renan Santos chegaram a dobrar a fatia de apostas no Polymarket, saltando de 5% para 10% logo após a crise, embora hoje figurem em torno de 7%.
Enquanto não surge uma candidatura considerada capaz de defender uma agenda fiscal previsível, analistas avaliam que dólar, bolsa e juros longos seguirão sensíveis ao noticiário político.
Com informações de Gazeta do Povo