Washington, 5 mai. 2026 – A decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de repatriar 5 mil militares lotados na Alemanha, após críticas do chanceler alemão, Friedrich Merz, à atuação americana na guerra contra o Irã, intensificou a percepção de que a Europa permanece distante de garantir a própria segurança sem o apoio de Washington.
Pressão norte-americana sobre a OTAN
Embora cerca de 36 mil soldados dos EUA continuem em território alemão, a Casa Branca não descarta reduções adicionais e já sinalizou movimentos semelhantes na Itália e na Espanha. Trump voltou a ameaçar a saída norte-americana da OTAN caso os aliados não ampliem o envolvimento no conflito com o Irã e assumam, até 2027, a maior parte das capacidades de defesa convencional da Aliança.
Em junho de 2025, o secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, advertiu que a Rússia poderia dispor de condições para atacar membros do bloco até 2030, reforçando a urgência de investimentos europeus em defesa.
Quatro entraves ao fortalecimento militar europeu
1. Déficit histórico de gastos: relatório divulgado pela OTAN em março indicou que, apesar da meta de 2% do PIB em defesa ter sido estabelecida em 2014, todos os 32 integrantes só alcançaram o patamar mínimo simultaneamente em 2025. Portugal, Espanha, Albânia, Canadá e Bélgica atingiram apenas o limite exato de 2%.
2. Coordenação lenta na União Europeia: especialistas Ethan Kapstein (Universidade de Princeton) e Jonathan Caverley (Faculdade de Guerra Naval dos EUA) apontam que o processo decisório coletivo é demasiado moroso para suprir um eventual vácuo deixado pelos EUA. Eles defendem a liderança de quatro potências regionais – Polônia, França, Reino Unido e Alemanha – na defesa continental.
3. Ritmo desigual de investimentos: dados do Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (Sipri) mostram que, em 2025, Alemanha (+24%) e Polônia (+23%) elevaram fortemente os gastos militares, enquanto Reino Unido (-2%) reduziu despesas e França registrou aumento modesto de 1,5%.
4. Paralisação de projetos conjuntos: o Future Combat Air System (FCAS), iniciativa franco-alemã orçada em € 100 bilhões, está travada há mais de um ano devido a divergências entre Dassault Aviation e Airbus Defence and Space, além de impasses entre Paris e Berlim. O colapso ameaça o programa de tanques franco-alemão, considerado pilar da defesa europeia.
Nova meta de 5% do PIB até 2035
Na cúpula de Haia, em junho de 2025, a OTAN aprovou destinar, até 2035, 5% do PIB de cada membro à defesa – 3,5% para despesas militares essenciais e 1,5% para itens “relacionados à segurança”. O Sipri alerta que a classificação ampla pode gerar relatórios inconsistentes e estimular contabilidade criativa, citando o caso da Itália, que tentou incluir o custo de uma ponte para a Sicília como gasto de defesa em 2025.
“Conta difícil de fechar”, diz analista
O coronel da reserva brasileiro Marco Antonio de Freitas Coutinho avalia que três exigências norte-americanas complicam o equilíbrio financeiro europeu: elevar gastos militares a 5% do PIB, arcar com a maior parte da ajuda à Ucrânia e adquirir sistemas de armas fabricados nos EUA.
“Apenas Alemanha e Polônia têm margem para aumentar o orçamento de defesa; Reino Unido e França enfrentarão dificuldades, e os demais países, mais ainda”, afirmou Coutinho à Gazeta do Povo. Para o especialista, a compra de armamentos americanos enfraquece a indústria europeia, mas é vista como inevitável, principalmente em defesa antiaérea.
O analista lembrou ainda que o empréstimo de € 90 bilhões aprovado pela União Europeia para Kiev, em abril, dependerá de captações num mercado com juros elevados, agravados pelo conflito no Golfo Pérsico e pela escassez de petrodólares. “Quem vai emprestar se a garantia europeia são compensações futuras pagas pela Rússia?”, questionou.
Coutinho destacou também o impacto do aumento global dos preços de petróleo, gás, alimentos e minerais estratégicos sobre uma Europa que, segundo ele, enfrenta restrições ambientais severas e redução no uso de energia nuclear.
Enquanto Washington pressiona por mais recursos e participação, os europeus lidam com metas ambiciosas, divergências internas e projetos militares em compasso de espera – cenário que, por ora, mantém o continente longe da autossuficiência em defesa.
Com informações de Gazeta do Povo