Home / Economia / Lula relança programa Desenrola e mira 80 milhões de inadimplentes

Lula relança programa Desenrola e mira 80 milhões de inadimplentes

ocrente 1777945776
Spread the love

Brasília – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou nesta segunda-feira (4) o Desenrola 2.0, nova rodada do programa federal de renegociação de dívidas, tentativa de aliviar a inadimplência que atinge cerca de 80 milhões de brasileiros – mais da metade da população adulta – e somam R$ 557 bilhões em débitos.

Primeira versão aumentou o endividamento

Implementado em julho de 2023, o Desenrola original permitiu, segundo o governo, a reorganização de R$ 58 bilhões para 15 milhões de pessoas. Dados do Banco Central, porém, indicam que a cada R$ 1 renegociado surgiram R$ 1,15 em novos compromissos, elevando a preocupação de analistas com o risco de estímulo à inadimplência.

Crescimento das dívidas

No Serasa, o número de consumidores com contas atrasadas há mais de 90 dias saltou em 9 milhões entre 2023 e março de 2026, totalizando 80 milhões de registros. Do montante devido, 47,5% está concentrado em bancos, administradoras de cartão e financeiras.

No sistema financeiro, a inadimplência das pessoas físicas na carteira de recursos livres alcançou 7% em março, 1,3 ponto percentual acima de março de 2025, patamar mais alto desde 2012. Paralelamente, os juros bancários atingiram o maior nível em nove anos.

Detalhes do Desenrola 2.0

Assim como na primeira edição, a nova fase oferece descontos que variam de 30% a 90% sobre o valor devido. Débitos com atraso superior a 90 dias, de pessoas com renda de até cinco salários mínimos, poderão contar com garantia do Fundo Garantidor de Operações (FGO), mecanismo que reduz o risco dos bancos.

Estudo do JPMorgan calcula que as instituições financeiras podem recuperar entre R$ 5 bilhões e R$ 10 bilhões em créditos considerados perdidos.

Argumento eleitoral

Com a renda das famílias comprometida em 49% com dívidas, segundo o BC, o governo vê no programa um alívio direto ao bolso de um público que sente a inflação de alimentos e a escalada dos juros. A retomada ocorre enquanto pesquisas mostram o senador Flávio Bolsonaro (PL), possível adversário de Lula em 2026, tecnicamente empatado com o presidente para o segundo turno: 47,5% a 47,8%, de acordo com levantamento AtlasIntel divulgado em 28 de abril. A sondagem ouviu 5.008 pessoas entre 22 e 27 de abril, margem de erro de 1 ponto percentual e registro no TSE sob o número BR-07992/2026.

Críticas: risco moral e causas estruturais

Especialistas apontam que novas renegociações sem atacar fatores como educação financeira e política fiscal expansionista podem perpetuar o ciclo de endividamento. O advogado Stefano Ribeiro Ferri destaca três pontos críticos:

  • Falta de educação financeira, que fragiliza consumidores;
  • Expectativa de novas rodadas, incentivando o atraso proposital;
  • Modelo de negócios que lucra com a inadimplência crônica.

Para o economista Claudio Shikida, do Ibmec, o lançamento em ano pré-eleitoral reforça a mensagem de que “gastar é permitido”, enquanto o próprio governo mantém déficit público que pressiona juros e dificulta a queda do endividamento.

Governo minimiza impacto inflacionário

Durante o evento de lançamento, Lula pediu que os beneficiários “cuidem da dívida com carinho para que possam continuar consumindo”. Já o ministro da Fazenda, Dario Durigan, negou que o objetivo seja estimular o consumo e garantiu que não haverá nova rodada além do Desenrola 2.0.

Durigan atribuiu o quadro atual à pandemia e à administração anterior, citando também o efeito das apostas esportivas online – liberadas em 2023 e regulamentadas em 2025 – sobre o orçamento das famílias. Lula afirmou que quem aderir ao programa ficará impedido de fazer apostas.

Juros elevados e contas públicas

Analistas relacionam o aumento dos juros à deterioração fiscal. A dívida pública bruta chegou a 80,1% do PIB em março, com projeção de alcançar 93,6% até 2030, segundo o boletim Focus. Para atrair compradores para seus títulos, o governo precisa oferecer taxas mais altas, o que retroalimenta o custo do crédito para pessoas físicas.

Sem abordar mudanças estruturais, o Desenrola 2.0 reforça o debate sobre os limites de programas de renegociação em um ambiente de juros altos, expansão dos gastos públicos e baixo nível de educação financeira.

Com informações de Gazeta do Povo