São Paulo – A historicidade da ressurreição de Jesus segue no centro de discussões acadêmicas e religiosas. Enquanto o filósofo Luiz Felipe Pondé separa o “Jesus histórico” do “Cristo da fé”, afirmando que o primeiro teria morrido sem ressuscitar, o historiador e bispo anglicano Nicholas Thomas Wright sustenta posição oposta. Para Wright, certos detalhes dos evangelhos dificultam a tese de que a narrativa teria sido fabricada para fortalecer o cristianismo nascente.
Testemunho feminino como peça-chave
Um dos pontos destacados por Wright é a presença de mulheres como primeiras testemunhas do túmulo vazio. No século I, o depoimento feminino não possuía valor legal em tribunais judaicos. Segundo o estudioso, se os seguidores de Jesus quisessem criar uma história convincente, dificilmente colocariam um grupo socialmente desacreditado no centro da prova.
Choque cultural em dois mundos
Para os gregos e romanos, a ideia de ressurreição física era vista com desconfiança, pois privilegiavam a esfera espiritual em detrimento do corpo. Já no judaísmo da época, a crença em ressurreição existia, porém restrita a um acontecimento coletivo no juízo final. A notícia de que um único indivíduo teria ressuscitado no meio da história contrariava as expectativas de ambas as culturas, aponta Wright.
Padrão dos movimentos messiânicos
O bispo lembra ainda que outros líderes messiânicos do primeiro século, ao serem executados, viram seus seguidores se dispersarem rapidamente. Com Jesus ocorreu o oposto: após a crucificação, o grupo se expandiu. Para Wright, esse crescimento atípico reforça o peso da convicção na ressurreição entre os primeiros cristãos.
Quem se sentia ameaçado
Wright argumenta que a questão central não é quem desejava a ressurreição, mas quem se via ameaçado por ela. Ele cita a peça “Salomé”, de Oscar Wilde, em que Herodes ordena que Jesus seja impedido de voltar à vida, como metáfora do impacto subversivo da mensagem sobre estruturas de poder.
Com esses elementos — testemunho feminino, resistência cultural e continuidade do movimento — Nicholas Thomas Wright contesta a hipótese de que a ressurreição seja fruto de fraude deliberada, destacando que os próprios detalhes tidos como problemáticos fortalecem a possibilidade de um evento real.
Com informações de Folha Gospel