O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, deve deixar o cargo ainda em março de 2026 afirmando ter cumprido sua “missão” à frente da pasta. Em quase três anos de gestão, contudo, a dívida pública avançou de 71,7% para 79% do Produto Interno Bruto (PIB) e pode chegar a 81,7% neste ano, segundo o Tesouro Nacional. Projeções de mercado vão além e estimam 84,9% do PIB, de acordo com o Prisma Fiscal.
Troca no comando e planos eleitorais
Nos bastidores de Brasília, o nome mais cotado para suceder Haddad é o do atual secretário-executivo da Fazenda, Dario Durigan. O ministro deixa o governo para disputar o Palácio dos Bandeirantes nas eleições de outubro e, antes de sair, prorrogou a permanência que inicialmente terminaria em fevereiro.
Dívida em alta apesar do novo arcabouço
Quando Haddad assumiu o ministério, em janeiro de 2023, a dívida bruta estava em 71,7% do PIB, segundo o Banco Central. No fim do primeiro ano do governo Lula subiu para 74,3%, alcançou 76,1% em 2024 e bateu 79% em novembro de 2025. Analistas como Alexandre Manoel, sócio da Global Intelligence and Analytics, classificam o aumento como um dos maiores das últimas duas décadas, comparável apenas ao registrado na gestão de Dilma Rousseff.
Para João Mário de França, pesquisador do FGV-Ibre, o novo arcabouço fiscal aprovado em 2023 é “frágil” e não garante a sustentabilidade da dívida, resultado que pressiona a taxa de juros mantida pelo Banco Central.
Metas cumpridas com exceções e contabilidade
O governo tem defendido que as metas de resultado primário foram atingidas, mas parte desse desempenho se deveu a ajustes contábeis e à exclusão de despesas classificadas como extraordinárias, sobretudo após as enchentes no Rio Grande do Sul em 2023. Dessa forma, um déficit de cerca de 0,48% do PIB em 2025 foi transformado em 0,10% negativo, dentro da banda de tolerância de 0,5 ponto percentual.
Mais impostos e resistência no Congresso
Determinada a elevar a arrecadação, a equipe econômica ganhou o apelido de “Taxad”. Entre as medidas aprovadas estão a reoneração gradual dos combustíveis e a Lei nº 14.754/2023, que tributou fundos exclusivos e investimentos em offshores. Tentativas de encerrar a desoneração da folha de pagamentos em 2023 foram rejeitadas pelo Congresso, que forçou o Planalto a prorrogar o benefício.
Crises de comunicação e recuos
A gestão enfrentou desgastes como a chamada “crise do Pix”, em 2024, causada por rumores de taxação das transferências. No mesmo ano, o anúncio simultâneo de um pacote de contenção de despesas e da ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil mensais gerou críticas de mensagens contraditórias.
Outros embates incluíram a tentativa de elevar o IOF por decreto e a desidratação, no Legislativo, de uma medida provisória que ampliava a tributação sobre aplicações financeiras.
Orçamento de 2026 e herança para o próximo governo
Em dezembro de 2025, o Congresso aprovou o Orçamento de 2026 com meta de superávit primário de 0,25% do PIB. O resultado dependeu de contingenciamento de gastos discricionários e da recomposição parcial de receitas, deixando boa parte do ajuste para a próxima gestão.
Reformas aprovadas e balanço ambíguo
Economistas reconhecem avanços microeconômicos, como a reforma tributária do consumo (Emenda Constitucional nº 132/2023) e o Marco Legal das Garantias (Lei nº 14.711/2023). Ainda assim, especialistas apontam que o legado de Haddad combina maior carga tributária, gastos elevados e uma trajetória de dívida considerada explosiva.
Com informações de Gazeta do Povo