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Disputa por terras raras expõe corrida entre China e EUA e coloca Brasil no centro do tabuleiro

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Brasília, 27 de outubro de 2025 – Turbinas eólicas, carros elétricos e mísseis guiados dependem de terras raras, grupo de 17 elementos considerados vitais para a transição energética e para tecnologias de defesa. Dono da segunda maior reserva do mundo, o Brasil tornou-se peça-chave na disputa entre China e Estados Unidos por esses minerais estratégicos.

Demanda deve multiplicar por sete até 2040

Projeções da Agência Internacional de Energia (AIE) indicam que a procura global por terras raras crescerá sete vezes até 2040. Quem controla a oferta e o processamento desses materiais pode comandar cadeias produtivas de alto valor agregado. Hoje, a China concentra cerca de 60% da extração e quase 90% do refino mundial.

Estratégia chinesa avança sobre mineração e logística brasileiras

O investimento chinês no Brasil subiu 113% em 2024, alcançando US$ 4,18 bilhões, segundo o Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC). Os aportes miram energia elétrica, petróleo e minerais críticos como nióbio, tântalo, estanho, lítio e níquel.

A BYD adquiriu em 2023 dois lotes ricos em lítio no Vale do Jequitinhonha (MG), enquanto a MMG comprou, em 2025, ativos de níquel da Anglo American. No front logístico, a Cofco International assumiu o terminal STS-11, no Porto de Santos (SP), e a China Merchants Port passou a controlar o Terminal de Contêineres de Paranaguá (PR).

Estados Unidos apostam no friendshoring

Para reduzir a dependência chinesa, Washington apoia projetos em países aliados. No Brasil, a australiana Liberty Metals afirmou à CNN Brasil que sua aquisição de áreas de terras raras segue a estratégia norte-americana de garantir cadeias de suprimento “seguras e transparentes”. O tema mobiliza o Congresso dos EUA: o senador republicano Tom Cotton pediu investigação sobre a expansão chinesa no agronegócio brasileiro.

Vantagens geológicas e ambientais

Depósitos de argilas iônicas em Poços de Caldas (MG) são considerados entre os melhores do mundo. O custo operacional pode chegar a US$ 8,8 por quilo de óxido, inferior ao de jazidas em rocha dura, além de gerar menor impacto ambiental. O projeto Colossus, da mineradora Viridis, elimina a necessidade de barragens de rejeito.

Gargalo do processamento

O Brasil ainda exporta concentrado misto de terras raras a cerca de US$ 10 por quilo. Óxidos separados valem de US$ 50 a US$ 200, e ímãs permanentes podem atingir milhares de dólares. O país não possui plantas industriais de separação química, etapa dominada por Pequim após décadas de investimento coordenado.

Pressão por uma política nacional

O Projeto de Lei 2780/2024, que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE), tramita no Congresso. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação defende a medida para articular investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação. Hoje, o orçamento do Centro de Tecnologia Mineral (Cetem) equivale a 2,5% do similar norte-americano e 1,4% do japonês.

Licenciamentos ambientais podem levar até 16 anos, calcula a Tractebel, fator que desestimula investimentos. O Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) defende modernização de procedimentos sem reduzir salvaguardas socioambientais.

Projetos em curso

A Viridis e a Ionic Rare Earths planejam instalar a primeira fábrica de óxidos de terras raras da América do Sul. Já o projeto Magbras, em Minas Gerais, pretende produzir ímãs permanentes. O governo federal lançou chamada de R$ 5 bilhões via BNDES e Finep para financiar cadeias de minerais estratégicos, mas a demanda privada atingiu R$ 85 bilhões.

Com matriz elétrica 80% renovável, forte legislação ambiental e relações com diversos blocos internacionais, o Brasil reúne condições para se tornar fornecedor confiável de terras raras. A definição de uma política de Estado para agregar valor à matéria-prima é vista como decisiva para evitar a repetição do modelo de exportação de recursos brutos.

Com informações de Gazeta do Povo