No dia seguinte à decisão dos Estados Unidos de impor uma sobretaxa de 25% sobre a maioria dos produtos brasileiros, entidades empresariais e analistas alertam para impactos imediatos na competitividade da indústria nacional.
Exportadores preveem perdas já no curto prazo
O presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban, afirmou que as vendas ao mercado norte-americano já vinham recuando no primeiro semestre e tendem a cair ainda mais com a nova tarifa. Segundo ele, empresas afetadas deverão reduzir margens ou perder espaço para concorrentes de países que não pagarão o adicional.
Para o especialista em comércio exterior Jackson Campos, o efeito não será homogêneo: “Setores de maior valor agregado sentirão primeiro, porque competem diretamente com fornecedores que continuarão entrando nos EUA sem a sobretaxa”, explicou.
Mercado financeiro já precificava medida
Gestores de fundos ouvidos pela reportagem afirmam que a possibilidade de um “tarifaço” estava no radar e, em parte, já refletida nos preços de ativos. A expectativa é de valorização do dólar frente ao real e maior cautela nos investimentos. Alguns segmentos, como o agronegócio, podem até ganhar competitividade relativa, avaliou um dos analistas.
Governo responsabiliza Bolsonaro; EUA culpam Lula
Em nota oficial divulgada em 15 de julho de 2026, o Palácio do Planalto classificou a decisão de Washington como “lastimável” e atribuiu sua adoção a um “enredo construído com a ativa colaboração da família Bolsonaro”. O texto também anunciou que o Brasil acionará mecanismos de retaliação previstos na Lei de Reciprocidade e recorrerá à Organização Mundial do Comércio (OMC).
Do lado norte-americano, o secretário de Estado Marco Rubio declarou que o presidente Donald Trump aprovou a tarifa porque o governo Lula “não negociou de boa-fé” e “colocou o próprio ego à frente do bem-estar do povo brasileiro”.
Entidades industriais divergem no tom
A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) apoiou a leitura de que falhas diplomáticas do governo brasileiro contribuíram para a crise. Em comunicado assinado por seu presidente, Paulo Skaf, a entidade citou juros elevados e carga tributária como agravantes e criticou “ruídos diplomáticos desnecessários”.
Já a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) adotou postura mais cautelosa, cobrando detalhes sobre a lista de produtos afetados, regras para cargas em trânsito e possíveis renegociações de contratos. A federação alertou para riscos de substituição de fornecedores brasileiros e pressão por descontos.
A oposição repercutiu as declarações de Rubio nas redes sociais. O senador Flávio Bolsonaro chamou Lula de “Biden brasileiro” e “inconsequente”, acusando o presidente de colocar o país em risco econômico.
Enquanto governo e oposição trocam acusações, especialistas reiteram que as consequências práticas da tarifa começarão a aparecer nas próximas semanas, com efeitos mais fortes sobre indústrias de alta tecnologia e manufatura intensiva.
Com informações de Gazeta do Povo