Brasília – A ofensiva da Polícia Federal que alcançou o senador Ciro Nogueira (PP-PI) na investigação sobre o Banco Master aprofundou a tensão entre o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o Centrão, ampliando o temor de novas derrotas em pautas sensíveis no Congresso Nacional.
Operação ocorre após revés no STF
A ação policial foi deflagrada poucos dias depois da inédita rejeição, pelo Senado, da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF). O episódio já havia estremecido a relação entre Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).
Aliados de Alcolumbre afirmam nos bastidores que o timing da operação foi entendido como tentativa de pressionar o Senado após a derrota do Planalto. A percepção reforçou a desconfiança entre Executivo e Legislativo e dificultou a reconstrução de pontes com o comando da Casa.
Centrão em estado de alerta
Ciro Nogueira, considerado aliado de primeira hora de Alcolumbre, passou a simbolizar, dentro do bloco, o avanço das investigações sobre lideranças do Centrão. Fontes ouvidas indicam que, neste momento, os inquéritos da PF miram mais políticos do grupo que nomes da esquerda ou da oposição de direita.
Parlamentares próximos ao presidente do Senado relatam clima de cautela. A expectativa é que Alcolumbre endureça a condução da pauta e mantenha distância do Planalto no curto prazo.
Especialistas veem lógica de retaliação
Para o cientista político Márcio Coimbra, o episódio reforça uma dinâmica de “retaliação permanente” em Brasília. Ainda que não haja provas de interferência do Palácio do Planalto na PF, a percepção de revanche já produz efeitos concretos na governabilidade, avaliou o analista.
Coimbra alerta para o risco de paralisação de reformas e projetos de interesse do Executivo enquanto persistir o ambiente de desconfiança.
Reação do Planalto
Segundo o colunista Lauro Jardim, Lula evitou ruptura institucional com Alcolumbre, mas determinou ao ministro José Guimarães um mapeamento de cargos do terceiro escalão ocupados por aliados do senador em vários estados, inclusive no Amapá.
Disputa de bastidores
O cientista político Flávio Testa afirma que o caso do Banco Master ultrapassou o âmbito financeiro e se transformou em luta por poder no Congresso. Para ele, o Centrão prioriza a preservação de espaços e não a estabilidade institucional.
Testa prevê que outras lideranças do bloco podem ser alcançadas pelas apurações, ampliando o clima de insegurança.
CPI divide Senado
A insistência da oposição em instalar uma CPMI do Banco Master contrasta com a resistência do Centrão e de Alcolumbre. O senador Oriovisto Guimarães (Podemos-PR) sustenta que a comissão nunca interessou ao grupo que comanda o Senado e lembra que houve negociação para evitar o pedido durante sessão do Congresso.
Guimarães também refuta acusação de motivação política na operação contra Ciro Nogueira, argumentando que o governo não tem ingerência sobre decisões do ministro André Mendonça, relator do caso no STF.
Do outro lado, o senador Luiz Carlos Heinze (PP-RS) defende a CPI e denuncia movimentação para barrar a investigação parlamentar. Heinze sustenta que as suspeitas atingem figuras de grande influência, inclusive dentro do governo e da Corte Suprema, e cobra ação imediata do Legislativo.
Apesar da escalada de tensões, Oriovisto acredita que o Centrão continuará disposto a negociar em troca de emendas e cargos, mantendo a tradição pragmática que caracteriza o bloco.
As próximas semanas serão decisivas para medir o impacto da crise na agenda legislativa e na relação do Palácio do Planalto com sua base parlamentar.
Com informações de Gazeta do Povo